E quando ele disse isso... Eu não tinha a mínima ideia do que significava... Mas tive certeza de que ele esperava algo mais do que uma frase de mim:
- Amor não é aquela coisa humana que eles dizem que sentem um pelo outro e saem distribuindo como se fosse água e levando em troca tapas na cara?
Ele abaixou a cabeça.
-É isso mesmo. E também a um desejo insano e obsessivo pelo objeto amado. O que nos faz perder a noção do tempo... E acabamos virando estranhos, completos loucos para os outros enquanto nos achamos perfeitamente normais...
-Quem pode amar um cadáver como ama um violino? Quem pode desejar tocar um corpo sem calor que se movimenta sem explicação alguma e se alimenta dos vivos?
-Eu posso.
-Você sabe que não tenho a mínima ideia ou noção do que você quer dizer, e que nunca vou te entender ou agir como você... Não tem?
-Eu sei.
Ele se aproximou estendeu a mão para mim e instintivamente recuei. Ele insistiu e dessa vez deixei, não queira entender porquês nesse momento. Nem eu mesma entendi porque deixei que me tocasse e muito menos porque o levei aquele lugar... Aquela fachada abandonada com 3 túmulos cercados por arame farpado com um velho casarão aos pedaços no fundo. O menor deles todo branco era o meu. Não havia um nome na lápide, uma data ou qualquer coisa. Mas era ali... Aquele lugar que nítido aparecia nos meus pesadelos. Talvez fosse a curiosidade ocupando o ócio. O que ele faria a seguir?
- Eu estava aí dentro. Faltou ar, faltou água, faltou vida no meu corpo. E mesmo assim eu voltei. Te salvei porque quis de te ouvir tocar. Mas você não pode me salvar.
-Está curiosa sobre o que eu quero fazer? Eu digo... Eu queria tomá-la a força. E morrer tocando para você.
-Isso também é conhecido como Necropedofilia. Tecnicamente segundo as regras humanas nunca fui uma adulta apesar de parecer uma jovem, eu morri aos 6 ou 7 anos? Não lembro mais... Será que foi mais que isso? Os mortos não fazem aniversário.
-Psssssssiu! Chega de dados e tudo que não importa, sou um idiota apaixonado.. E muito burro! Amei, amei a música e virei lixo social, amei um cadáver e não sei mais o que sou. Só vou fazer uma coisa.
Ele se jogou em cima de mim e arrancou a minha mascara. E ele pressionou seus lábios nos meus. Suave... Ele era quentinho como os vivos costumam ser, por alguns momentos eu quis absorver aquele calor. Era quente como a música que ele fazia. Mas ele parou. Provavelmente porque a sensação era a mesma de ter uma boneca em mãos. Ou... Não. Pela primeira vez eu não consegui prever o que ia acontecer a seguir, ou explicar de uma maneira didática.
-É por causa dessa vontade cruel que vou embora. Te amar de longe, sem te machucar.
- Admito que sinto uma quantidade baixa de dor, mas um homem não vence uma assassina canibal e morta-viva apenas com palavras e alguns socos dotados de testosterona.
-Mas as palavras são como a música... Alcançam a alma e machucam por dentro. Ou curam a solidão a dor, o ódio... De quem te ama intensamente... Quando eu morrer você arruma uma lápide pra mim?
-Você não teme a morte?
-Temo a vida. Vivo, não sou digno de ti. E morto, pelo menos estaremos unidos pela dor.
Ele virou as costas.
-E o que escrevo no seu epitáfio?
Ele sorriu e disse: "Jaz aqui um músico louco cuja vida foi dedicada à música e cuja morte dedicada a um único amor."
O vento passou, arrebatou algumas folhas e os cabelos dele. E assim ele partiu sei lá para onde.