quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Chapter XVII A última Taça

Nos encontramos ao cair da tarde, sob o sol avermelhado e ardente que costuma desaparecer entre as montanhas... 
Eu havia o convocado a me fazer companhia à beira de um penhasco. Havia uma mesa redonda pronta para um eventual chá da tarde e no centro havia uma única taça de cristal vazia.

E ele veio. Novamente com o mesmo traje branco sob o colete preto, o olhar misterioso, as orelhas... Preciso parar de divagar sempre que penso nessas lindas orelhinhas de gato *-*. Vinha trazendo a tiracolo um livro bem pequeno e um óculos discreto no bolso. Qualquer um não teria notado... Mas eu vi. Analisá-lo diariamente já havia se tornado uma rotina. 

Ao chegar ele não deixou de cumprir nenhuma das cerimônias, se encurvou e me saudou: Mon cher. 

-Não sou sua querida. Sou um cadáver que anda, fala e devora humanos, que ainda não perdeu todos os hábitos humanos. Uma assassina, um monstro. Posso devorá-lo agora mesmo. 


-Mon cher, desde a noite em me tocaste cada célula do meu corpo lhe pertence. Se servir de alimento para vós for o seu desejo; terei prazer em cumpri-lo. 


-Meu desejo é que você faça uma escolha que eu não quero fazer por você. 


Ele pareceu surpreso. Eu puxei uma das cadeiras e disse: 


-Sente-se. 


Ele obedeceu prontamente. Fui me sentar, ele fez menção de levantar-se e puxar a cadeira cavalheirísticamente e ordenei: -Não se mova. 
Ele permaneceu obediente. 


-Coma. Lhe concederei uma oportunidade que não tive e nem costumo dar. Eu mesma preparei. Espero sinceramente não ter errado nas medidas, já que é bem difícil cozinhar apoiando-se apenas no olfato e em um livro. 


Ele provou, e sorriu. 


-Está divino. Errou a consistência dos bolinhos de grãos-de-bico - disse ele comendo o ultimo deles. - Mas qualquer coisa preparada por suas delicadas mãos, certamente será maravilhosa mon cher. 


-Ainda não sei o que você é, mas tenho certeza de que humano não é. Nenhum humano em sã consciência comeria algo preparado por um cadáver. Ou sequer viria aqui e permaneceria tão calmo. 


-Que acompanhamento devo servir quando fores me devorar mon cher? Deseja algo especial? Como devo decorar o prato? Prefere uma grande bandeja de prata ou me tomará vivo e agonizante entre seus braços? Imagino que cetim, não agrade o seu paladar... Nesse caso... 


Ele retirou o colete e começou a abrir a camisa um botão de cada vez.


Peguei a taça do centro da mesa, bati a unha contra a borda e a quebrei. Com um dos cacos dilacerei meu pulso e enchi a taça com meu sangue. Ele já não era tão vermelho, possuía um tom de vinho que desafiava os tons mais escuros, enquanto a taça refletia em sua borda estilhaçada os últimos raios solares sendo engolidos pelas sombras... E eu a ofereci a Ricartto. 


- Vê esta taça? Se a provar será a ultima. Nunca mais tornará a sentir sabor algum que não o de sangue e carne humana. Sua fome será macabra, e sua existência será regida por uma valsa demoníaca. 


-Se eu a provar... Poderei servi-la por toda eternidade? 
-Se a provar. Não terá outra escolha.


Ele se aproximou e colocou suas mãos sobre as minhas segurando a taça entre elas, e aproximando os lábios a entornou para si, e quando já não havia mais sangue na taça ele lambeu as bordas cortando os lábios e a língua por fim, lambeu minha mão até o local do pulso. Em seguida como os cavalheiros da idade média beijou minha mão. 


-Me concede a honra desta dança? - Disse ele me puxando para junto de si. E eu não parecia mais que uma boneca sendo abraçada sem qualquer emoção no olhar. Enquanto ele rodopiava comigo nos braços. 


Por fim, entediada eu respondi: - Não sei dançar. Vamos para casa. 


-Comme vous voulez mon cher.


Não me bastava estar só. Não me bastava existir eternamente. Era necessário um mimo... Um gatinho de porcelana se encaixava perfeitamente no meu mundo sombrio. 
E agora... Eu tinha arrastado mais um para o baile dos imortais... Mais um para o inferno.





terça-feira, 29 de novembro de 2011

Chapter XVI Humilde servo

E depois daquele momento único, as noites nunca mais seriam as mesmas...
E o tempo passou novamente a ser contado em dias, horas minutos e segundos. A pontualidade assustadora com a qual ele me despertava todas as manhãs tocando gentilmente minha mão todas as manhãs sussurrando: "Bela manhã 'mon cher'. Os pássaros estão a cantar lá  fora."

- E que culpa eu tenho disso?! 

-Quel est votre désir mon cher? - Ele repetia incansavelmente sorrindo sempre. 

E nesse momento meu estômago me lembrou que havia algum tempo que eu não me alimentava como devia graças a presença de Ricartto. É claro que eu não faria isso por um humano ou um motivo qualquer... Mas já disse e repito: A minha vida por um gato. 

- Je crois savoir. - Ele simplesmente saiu.

Ele voltou em questão de minutos com uma bandeja muito bem ornamentada e realmente bonita com um lanche delicado, bolinhos de carne bem temperados, acompanhados de chá de ervas campestres. Eu simplesmente fiquei olhando para aquilo por alguns minutos como se ele tivesse me colocado uma bomba ou servido veneno para comer.

-Não está ao seu agrado mon cher? 
-Não vou tocar isso. 
-Me permita.

Ele escolheu um dos bolinhos segurou entre os lábios e me ofereceu. Você aceitaria? 

Curiosidade. Essa palavra explica todas as minhas ações. O novo e inesperado, o misterioso atrai. 

E o inesperado aconteceu: - Eu senti o sabor. O sabor da comida humana que não me saciara desde o dia da minha morte, e que tão pouco tivera sabor. Eu reconheceria este toque espesso e suave em até mil anos longe. Tenho absoluta certeza de que seja o que for nesta receita, há sangue humano misturado entre as ervas indianas, entre o cravo e a pimenta do reino.  Enquanto ele me servia um a um cuidadoso, e eu os devorava. Prazer tal que não pudera imaginar conseguir algum dia... Me foi oferecido entre os lábios de um humilde servo. 

Ele pegou um guardanapo de algodão muito branco e bordado nas laterais, limpou minha boca. 

-Com licença 'mon cher'.

Eu apenas comecei a me perguntar como ele conseguia fazer tudo tão habilmente em questão de minutos, e coisas que eu nem sabia que possuía ganhavam existência e requinte. Mistérios felinos... Ricartto... Certamente é fonte da minha curiosidade neste momento... 

E enquanto isso... Uma lista gigantesca de pedidos, requisitações  se acumulava nos meus contatos... Era o dever enviando seu chamado noturno... Exigindo que eu ostentasse o manto que me fora concedido pela morte, e o manchasse de vermelho. Entre lâminas afiadas que brilham como os cometas, segundos antes de sua explosão ceifando vidas sem piedade...  

"Algum humano  velhaco disse: Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje." 

Eu realmente devia ter ido. Mas não fui. E assim, uma bela tarde Ricartto como um humilde e prestativo servo, se dispôs a organizar e separar o útil do inútil. E assim... Ele chegou aquela lista... Meu convite para o baile dos imortais... Meu trabalho...  Minha amada maneira de existir... Minha festa no inferno... Agora eu tinha uma decisão à frente... O que farei com este humilde servo? 





Chapter XV La porcelaine chaton II

E foi assim que ao resolver acordar me deparei com um completo estranho ao meu lado. 
Ele simplesmente era a personificação de uma elegância que somente os seres mais nobres possuem: Com a pele alva como uma porcelana fina, bem vestido por uma camiseta de manga longa preta coberta por um colete de cetim branco, e uma calça social branca. Reconheci os olhos acinzentados e as orelhas de gato... 
Aquela criatura à minha frente não era mais um mero gato de rua. Em algumas horas havia se transformado quase que misticamente em um belo gatinho de porcelana, sim, como os bibelôs que costuma-se comprar... Silencioso, elegante, exalando no próprio perfume o que os humanos costumam chamar de "Sedução".
O dicionário costuma dizer que sedução é a definição daquilo que atrai naturalmente, por ser proibido ou por conquistar simpatia. Nesse caso, certamente... Essas orelhas me seduzem. 

Ele se curvou levemente e me estendeu a mão para que eu levantasse. Eu a segurei na esperança de descobrir se seriam tão macias quanto costumam ser as patinhas dos gatos persa... Decepcionante... Estavam cobertas por luvas de pelica. 

-Mon cher... Diga-me qual o seu desejo e eu o farei
-Você tem nome?
-Ricartto. 
-Ricartto? O que você é? Um humano, um gato, um demônio... O que é você?

Ele ajoelhou-se frente a mim e disse: - Sou apenas seu humilde servo. Atenderei todos os seus desejos, basta  que diga-me... Qual o seu desejo "mon cher"?

-Desejo saber o que é mon cher. ¬¬'
Ele sorriu serena e malignamente: - Minha querida, em francês.
-Por que francês? Seu nome é italiano não é? Aliás, até onde me lembro, ainda estou na itália devem ter alguns meses... ou anos??
-Meu pai era francês, os melhores perfumes são franceses como também as mais belas artes. Dedicarei minha existência para que apenas idiomas nobres e suaves sejam merecedores de tocar seus ouvidos "mon cher".

Como todos podem estar certos, não entendi absolutamente nada. A não ser que ele tinha muito orgulho da descendência francesa em sua linhagem. Bem, não me importo. A única coisa que realmente quero é tocar aquelas orelhas tão macias e quentinhas como só os gatos são. Estendi as mãos. Ele se encurvou deitando a cabeça sobre meu colo e eu fiquei brincando com as orelhas e o cabelo dele tão liso e macio *-* 

domingo, 27 de novembro de 2011

Chapter XIV O Gato de Porcelana

Desse dia em diante, o som em meu refúgio mudou de timbre, mas não para o tipo barulhento e incômodo de insatisfação que ruge nas cidades humanas. Era silencioso, elegante, de vez em quando ouvia-se um som agradável ecoar... Era novamente o som produzido por aquele instrumento que ele viera segurando consigo durante todo percurso sem reclamar uma só vez, não dissera qualquer palavra. Realmente era um gato.

Ah sim! reconheço esta melodia... É um tango. Era a primeira vez que eu ouvia um Tango sendo tocado em gaita harmônica. Parecia ser sua composição favorita. Realmente ele ficava onde eu havia deixado e pouco se movia exceto quando estava tocando, e quase sempre estava tocando. Silencioso, não ousava me encarar.
Realmente os gatos são criaturas cuja graça e charme é concedida por natureza; sempre considerei essa aparente e temporária timidez felina como alguma estratégia maravilhosa, certa cautela, da astúcia objetiva e pura que só se encontra em certos felinos e serpentes.

De manhã eu lhe servia um pires de leite. ao meio dia oferecia-lhe de tudo, e nada o aprazia. Na verdade cansei-me de sair e encontrar o prato intocado. Até que um dia lhe ofereci sardinha crua, e pela primeira vez ele se levantou do seu sofá e veio em minha direção.

Após isso ele lambeu os dedos e não saiu do meu lado. Li em um livro de que para conquistar um felino você só precisa de paciência, um pires de leite e um prato de sardinha... Bem, aqui estamos. Ele realmente precisava de um banho, mas todo mundo sabe... Que os gatos não gostam de água.
Eu não me importaria de sair arranhada, mas simplesmente não gostaria de fazer essa crueldade com ele. E decidi que ele ficaria como quisesse.

Navegando na internet, enquanto lembrava da aquelas orelhas tão macias na cabeça dele só conseguia pensar em uma coisa: "Paf Paf" -apertar-. E vi algo que ele merecia. Ao cair da noite, Fui comprar. Realmente não sou muito sociável, mas definitivamente eu queria dar aquilo a ele. Bem, acho que se eu sorrisse um pouco ou tivesse os olhos mais rasos, ao invés desse olhar pouco expressivo, mas parecia que a morte havia me concedido seu manto negro; é realmente uma honra não é mesmo?

E foi entre olhares reprovadores, suspeitos que entrei na loja desafiando o vendedor a me ofender ou jogar alguma coisa em mim SE tivesse coragem... Ele não o fez foi justamente o único elemento que faltou, ah sim, isso e o detalhe de que uma das atendentes não tirava os fones de ouvido, ruiva com pouca questão do que o colega de trabalho falava ou não. Era metaleira. Bem, se existem pessoas que tem meu respeito são aquelas que tem a decência de usar fones de ouvido, e não mudam de comportamento só porque tem outras pessoas torcendo o nariz. Ela terminou de guardar os cd's na sua sessão e deu uma "bundada" no colega que pensava se me atenderia ou não, e ele caiu sentado. Ela era mais forte do que ele, não fazia juiz ao tipo físico esteticista do mundo humano no século 21... Ela era gordinha, me lembrava bastante um rouxinol que vivia na janela do meu refúgio durante a manhã cantando, redondinha e baixinha... Fiquei mais uma vez surpresa, como poderia existir uma humana tão bonita quanto meu querido rouxinol?

Me olhou bem nos olhos e disse: Boa noite moça vai levar o que?

- Quero a coleirinha em forma de gravata.

Ela não fez perguntas foi lá e tirou da vitrine. O rapaz parecia atordoado, falando baixo para ela que era muito caro, que precisava ser reservado com antecedência pois era uma peça muito fina... Bem, se não fosse essa minha audição aguçada... Realmente eu não teria ouvido nada. Ela olhou pra ele e disse: - Ah vá te lascar! A moça quer comprar, ninguém vendeu esse troço em mais de 6 meses e você fica aí com o C* dando choque. Ela voltou sorrindo.

-Embalagem pra presente?
-Pode ser.

Ela embalou eu tirei um maço de notas de 100 do bolso e coloquei exatos 2 mil e 100 reais sobre o balcão.

-Moça é só 2 mil.
-Os 100 são pra você. Acho que vocês chamam de gorjeta quando se é bem atendido.

Virei as costas e saí andando. Ela veio atrás de mim querendo dizer: Não posso aceitar, mas a despistei entre a escada e uma loja de roupas.

Ela voltou pra loja resmungando: "Porra, nem pra aparecerem clientes assim quando eu trabalhava no restaurante ¬¬' Aliás, Quando é que meu patrão vai me deixar voltar pra lá? Que coisa chata ajudar o irmão mais novo ¬¬' pelo menos posso ouvir meu rock em paz." - Acabei ouvindo tudo isso quando já estava a quilômetros de distância do shopping... Algum tempo depois finalmente cheguei ao meu refúgio. Talvez eu devesse ouvir menos...

-Psiu! Gatinho... Vem cá!
Ele estava deitado no sofá olhou pra mim e sentou. Eu fui até ele e mostrei o presente. Ele não esboçou reação nenhuma... Até eu colocá-lo no pescoço dele. Foi como se uma injeção de vida tivesse sido injetada direto no cérebro dele. E descobri que ele sabia falar não só aquele idioma, mas o meu também.

-Você me quer? Vai me deixar atender todos os seus desejos?
-Orelhas... *-* ...Paf paf... Estendi as mãos para tocá-las quase que instintivamente.

Ele abaixou a cabeça para que eu as alcançasse. Eu as peguei. Eram mesmo tão macias quanto pareciam e eram reais!?

Ele pegou minhas mãos e acariciou o próprio rosto com elas. Por fim disse: - Preciso de um banho. Eu o acompanhei até o banheiro e ele disse: Eu cuidarei disto desta vez "Mon cher". Em 60 segundos ele estava nu. Rápido... Muito rápido. Eu virei as costas e saí quase que roboticamente... Que coisa assustadora era aquela? Os livros não disseram nada sobre isso. Espere, acho que nenhum livro explicaria aquelas orelhas, ou mesmo essa situação; exceto uma imaginação muito fértil de quem tem o estômago muito forte, ou algum livro de ficção científica...

E foi exatamente assim que eu caí no sono. Não por cansaço, mas por tédio. Que banho lento!

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Chapter XIII O Gato e a Gaita

 Tomei um banho não me pergunte porque, mas gosto muito de banhos. Aposto que seria igual ou pior se tivesse morrido afogada, a verdade é que por culpa de Narciso acabei me acostumando com o jeito fácil dos vivos levarem os dias, então seguir esses sistemas "naturais" de sociedade é muito sem sentido... Mas extremamente viciante... Gosto videogames... Enfim, depois dessa sequencia de reflexões pouco importantes subi. Como o eco era muito fino e não muito distinguível imaginei que não passasse de algum gato faminto. Então levei um pires de leite.

Mas quanto mais eu me aproximava do ponto de origem do eco que agora tornava-se um som mais claro porém desconhecido. Eu não conseguia parar de imaginar que instrumento poderia produzir tal sinfonia. O chão está úmido... Dá pra ver pelas poças de lama dessa pocilga que chamam de rua. Agora me dei conta de que andei muito e estou a quilômetros do ponto de partida... Mas que tipo de lugar fétido e insalubre é esse? Bem, pela situação dos estabelecimentos trancados durante o dia e esse fedor de secreção humana calculo que mais à frente tem um prostíbulo.

Mas uma rua antes uma entrada de viela pobre sentado sobre um monte de caixotes seminu e molhado com uma aparência não tão interessante tem alguma coisa... A princípio pensei que fosse algum humano vagabundo, e mas notei que o som vinha de lá. E fui me aproximando. Antes que eu chegasse pois ainda estava um pouco longe um homem pareceu tentar arrastá-lo para dentro do depósito e como ele não ia o homem tentou usar força e nesse momento vi algo que não esperava... Mas achei lindo... Ele deixou cair aquilo que segurava entre as mãos e o rosto era um objeto bem pequeno e cumprido, a parecia-se bastante com um canivete... Ele golpeou estômago do tal homem e como ele ficou sem ar rapidamente o derrubou no chão quebrando a coluna do indivíduo e segurando seu braço arrancou com os dentes um a um dos seus cinco dedos e quanto mais ele se debatia mais sangue jorrava.

No final ele disse: "Vous n'êtes rien. Qu'il mérite pour les mettre ces doigts sales sur un objet aussi minceque moi."


Pegando de volta seu objeto ele o limpou e eu fiquei surpresa... Saiu um som! Definitivamente não era um canivete... Ou ele o teria usado...! 
Finalmente o alcancei... E vi algo impressionante...  Algo que me ofuscou completamente... Ele tinha na cabeça escondidas entre o cabelo molhado orelhas de gato... Ele tinha olhos acinzentados como de um filhote de gato recém-nascido que não se decide entre o azul-céu e verde-mar. Eu o definitivamente queria levá-lo para casa... E levei. 


Tecnicamente eu sou um cadáver e não tenho vida, mas tudo que se alimenta e faz alguma digestão é vivo de alguma maneira... Ou simplesmente por convivência ou simples ato de assistir os humanos peguei esse hábito  de usar essa palavra também.  Sou obrigada a admitir que apesar de tanta porcaria no mundo humano... Eles também tem algumas coisas que agradam até mesmo a mim.


Dou minha vida por um gato ou cachorro... Hoje por um gato. 


Chapter XII Vazio

Realmente nunca entendi o significado da palavra "saudade".
Tudo que sei, é que a ausência de Narciso pesou... Pesou no espaço imenso como uma pétala de rosa pesa sobre a retina de um cadáver recente... E como nada grita mais alto que o silêncio... Você passa a ouvir mais do que o de costume... Os grilos estão cantando lá fora... E os humanos... Continuam seguindo com suas vidas. Não tenho o hábito de julgar os humanos só porque são humanos; mas definitivamente os odeio. Se eu dissesse que os amo aí sim estaria agindo como um deles... Mas só porque você odeia uma coisa... Não quer dizer que não a salvaria... Não é?

Agora estou olhando para o teto... Me falta a vontade necessária para impulsionar meus músculos e me sentar. De modo que devo ficar quase inerte no chão por algumas horas, que logo se transformariam em dias. Não é tão ruim. É bom... Como agora estou morando em um esconderijo subterrâneo, não faz tanta diferença entre minha "residência" e um caixão debaixo da terra, exceto... Que é bem maior... Muito maior.

Mas quando nos rendemos ao vazio... Um simples eco é capaz de nos incomodar tão profundamente quanto o som de uma britadeira no próprio crânio. E foi esse eco que me lembrou que eu precisava me movimentar um pouco ou meu corpo logo iria parar de bombear o sangue morto com tanta eficácia e minha carne poderia necrosar. Não é uma ideia que me agrade muito... Na verdade não gosto nem um pouco dela.

Uma coisa é ter um olhar mortal que diz apenas "eu vou devorá-lo" "não adianta gritar... Eu não vou ouví-lo... E ninguém vai" a outra bem diferente é feder como um defunto velho.

Mas, voltemos ao tal eco que eu ouvi há pouco. Minha audição é muito aguçada... Veio lá de cima... Tenho certeza.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Chapter XI Partida

E quando ele disse isso... Eu não tinha a mínima ideia do que significava... Mas tive certeza de que ele esperava algo mais do que uma frase de mim:

- Amor não é aquela coisa humana que eles dizem que sentem um pelo outro e saem distribuindo como se fosse água e levando em troca tapas na cara?

Ele abaixou a cabeça.

-É isso mesmo. E também a um desejo insano e obsessivo pelo objeto amado. O que nos faz perder a noção do tempo... E acabamos virando estranhos, completos loucos para os outros enquanto nos achamos perfeitamente normais...

-Quem pode amar um cadáver como ama um violino? Quem pode desejar tocar um corpo sem calor que se movimenta sem explicação alguma e se alimenta dos vivos?

-Eu posso.

-Você sabe que não tenho a mínima ideia ou noção do que você quer dizer, e que nunca vou te entender ou agir como você... Não tem?

-Eu sei.

Ele se aproximou estendeu a mão para mim e instintivamente recuei. Ele insistiu e dessa vez deixei, não queira entender porquês nesse momento. Nem eu mesma entendi porque deixei que me tocasse e muito menos porque o levei aquele lugar... Aquela fachada abandonada com 3 túmulos cercados por arame farpado com um velho casarão aos pedaços no fundo. O menor deles todo branco era o meu. Não havia um nome na lápide, uma data ou qualquer coisa. Mas era ali... Aquele lugar que nítido aparecia nos meus pesadelos. Talvez fosse a curiosidade ocupando o ócio. O que ele faria a seguir?

- Eu estava aí dentro. Faltou ar, faltou água, faltou vida no meu corpo. E mesmo assim eu voltei. Te salvei porque quis de te ouvir tocar. Mas você não pode me salvar.

-Está curiosa sobre o que eu quero fazer? Eu digo... Eu queria tomá-la a força. E morrer tocando para você.

-Isso também é conhecido como Necropedofilia. Tecnicamente segundo as regras humanas nunca fui uma adulta apesar de parecer uma jovem, eu morri aos 6 ou 7 anos? Não lembro mais... Será que foi mais que isso? Os mortos não fazem aniversário.

-Psssssssiu! Chega de dados e tudo que não importa, sou um idiota apaixonado.. E muito burro! Amei, amei a música e virei lixo social, amei um cadáver e não sei mais o que sou.  Só vou fazer uma coisa.

Ele se jogou em cima de mim e arrancou a minha mascara.  E ele pressionou seus lábios nos meus. Suave... Ele era quentinho como os vivos costumam ser, por alguns momentos eu quis absorver aquele calor. Era quente como a música que ele fazia. Mas ele parou. Provavelmente porque a sensação era a mesma de ter uma boneca em mãos. Ou... Não. Pela primeira vez eu não consegui prever o que ia acontecer a seguir, ou explicar de uma maneira didática.

-É por causa dessa vontade cruel que vou embora. Te amar de longe, sem te machucar.

- Admito que sinto uma quantidade baixa de dor, mas um homem não vence uma assassina canibal e morta-viva apenas com palavras e alguns socos dotados de testosterona.

-Mas as palavras são como a música... Alcançam a alma e machucam por dentro. Ou curam a solidão a dor, o ódio... De quem te ama intensamente... Quando eu morrer você arruma uma lápide pra mim?

-Você não teme a morte?

-Temo a vida. Vivo, não sou digno de ti. E morto, pelo menos estaremos unidos pela dor.

Ele virou as costas.

-E o que escrevo no seu epitáfio?

Ele sorriu e disse: "Jaz aqui um músico louco cuja vida foi dedicada à música e cuja morte dedicada a um único amor."

O vento passou, arrebatou algumas folhas e os cabelos dele. E assim ele partiu sei lá para onde.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Chapter X Narciso - II

Alguns minutos depois eu estava diante do excelentíssimo senhor primeiro ministro.
-Primeiro ministro? A operação foi um absoluto sucesso, assim como eu planejei.

-Ótimo! Já mandei transferir o dinheiro para a conta combinada.
-Eu sei... Eu vi. E vi também que você não cumpriu sua parte do combinado totalmente... Se bem que apenas isso eu seria capaz de relevar. O que não aceito; é o mero detalhe descarado de que você além de me roubar um terço do pagamento do presidente, não pagou sua parte, e ainda por cima teve a ousadia de colocar a federal atrás de mim. Tem noção do que você fez?

-Não sei do que está falando... Eu de modo algum a trairia.
-Ah não sabe? Vou refrescar sua memória então: O presidente simplesmente deveria ter me pago o dobro do que você me ofereceu para sequestrar a pirralha presidencial. E assim você poderia fazer um minucioso levantamento de provas e extratos e poderia acusá-lo de roubo aos cofres públicos no mês seguinte. E por consequência de uma morte "misteriosa" do vice-presidente você assumiria o cargo. Brilhante... Se não você pelo detalhe de que você vai morrer agora.

-O que?! Olhe pense bem, posso lhe dar um cargo! 10 vezes mais! -Aquela expressão típica enlouquecida, falsa e ambiciosa que é estampada na cara de todos os políticos nos folhetins de campanha também estava estampada na cara dele... Isso me irrita.

-O presidente não me pagou o dobro. E sim quatro vezes mais. Sabe o que significa certo? Sim, ele pagou pela sua cabeça. Conhece o meu lema... Eu te avisei... "Até 4 é o limite do preço;  sendo que alguém há de morrer".

-Vamos negociar... Pelo amor de deus!
-Quem? Olha, não fique citando estranhos no meio de uma conversa intima entre "amigos". Sabe, tem uma coisa interessante no seu sotam... Fiz todas as ligações daqui, da sua casa. Foi assim que o presidente entendeu minhas indiretas. Viver para quê? Amanhã você não terá onde cair morto.

Eu disse tudo isso com um olhar sórdido e psicótico. Eu tinha noção do quanto aquilo era perturbador, mas a essa altura já havia se tornado... Parte do trabalho.
Foi divertido abrir o peito dele. Morder um coração humano ainda palpitante é uma sensação única!

E foi assim que cheguei em casa exausta. E havia um bilhete sobre a cama do jovem músico. Eu sei, que aparentemente não é certo alguém da minha estatura chamar outro de condições físicas semelhantes de jovem ou velho, mas simplesmente não tenho a mínima noção do tempo. Para mim velhos e novos se confundem. São todos iguais!
O bilhete dizia: "Eu sei do que você vive estou no beco"

Pela primeira vez ele não estava tocando quando cheguei... Ele segurava em mãos uma flor branca.

-E então? Vai fazer algum exorcismo com essa florzinha aí?

Ele veio em minha direção e me deu a flor, por alguns instantes relutei em pegá-la. Por fim a segurei.

-É um narciso branco. Meu nome também é Narciso.

-E o que isso importa?
-É que... Me apaixonei por você.