segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Chapter XX O convite

Passou-se dois anos até que eu me lembrei que o tal assassino da rosa. Havia deixado um envelope sobre a mesa. 
Ricartto havia voltado do supermercado, aliás, neste últimos anos Ricartto tem andado no meio dos humanos como se fosse um deles, basta por um chapéu na cabeça e pronto. Lá vai ele desfilar no meio dos humanos... Impossível que Ricartto não chame atenção; pois ele é infinitamente mais bonito que qualquer mortal que já se  viu andar sobre a terra... E cada vez que penso nisso crescem ainda mais minhas idéias de que Ricartto não era um simples humano quando o encontrei...
Não, mas isso é certeza. Afinal, que humano comum tem o charme e as orelhas de um gato?

-Não vai abrir cherry? - Disse ele me fitando com o envelope entre os dedos.
-O quê? Isto? Quer que eu abra? Pode ser uma carta-bomba.

Ele riu. Eu fiquei observando-o rir sem entender o que eu havia feito para que ele risse. - Será que eu disse algo engraçado? - Pensei. Mas nem mesmo essa dúvida me impediu de destruir o envelope e tirar uma carta com dois ingressos de dentro dele. 
A carta dizia: 

Veneza, 02 de Fevereiro de 2010. 

* Saudações. 

Eu sempre soube que um dia nos encontraríamos. Não me conhece mas eu me lembro de você. Te vi no laboratório quando eu passei "redecorando" as paredes com o sangue dos funcionários. Gostaria de agradecer afinal, se recebeu esta carta, fez por merecê-lo. Tenho prazer em convidar você e a quem mais quiser levar para visitar meu teatro. Basta vir a Veneza e procurar por "Valsa Dantesca".   


Ps: Venha para saber o meu nome.*

 O fato é que eu estava entediada, e qualquer desculpa serviria de distração, ainda que para isso precisasse viajar à toa... Eu iria. 

-Vamos para Veneza. Providencie um táxi aéreo e óculos escuros. 
-Oui mon cher! 

E quando finalmente estávamos em pleno voo... Para nossa sorte o piloto era do tipo que faz seu trabalho em silêncio e permanece assim após ele, sem sequer observar os passageiros, ele parecia muito mais preocupado em voar do que conosco e nossos óculos escuros, com a pele pálida, e roupas escuras, isso sem contar que eu não tiro minha máscara... Nunca!
E assim finalmente chegamos no aeroporto.

- Mon cher... Abaixe essa máscara está deixando os policiais inquietos... 
- Não. Compre máscaras de Veneza para nós. 

Me sentei nas poltronas do saguão e esperei que Ricartto retornasse. E finalmente ele veio. 

- O que faremos com elas? 

Eu não respondi coloquei uma delas sobre a minha própria e chamei um táxi. Ricartto me seguiu com a dele em mãos. 

- Para onde donna? - Perguntou o velhinho taxista.  
- Valsa Dantesca. 

O velhinho arregalou os olhos e disse: - Tem certeza? Há quem diga que o lugar é assombrado...

- Somos artistas. 

O velhinho sorriu e começou a guardar nossa bagagem no porta-malas. Como descrever a sensação de andar pelas ruas de Veneza? Não sei fazê-lo. E por mais que para mim todas as cidades sejam quase iguais: Formigueiros de humanos. 
Veneza tem algo que faz com que você deseje descer do carro e andar pelas ruas descalço. Correr até uma das pontes ficar lá admirando a cidade até que caia dentro das águas exausto. 
Certamente fazer isso não era algo que eu cogitasse naquele momento, então me contentei em me entreter observando as reações de Ricartto que olhava a cidade com certo desdém de quem não tem boas lembranças do lugar... Preciso lembrar de descobrir sobre isso algum dia... 

E assim chegamos. Diante da gloriosa fachada italiana, dotada de um requinte impressionante, haviam guardas antes da faixa amarela de "Não ultrapasse". O lugar estava um caos, algo como um massacre, um incêndio ou ainda ambos, pareciam ter acontecido ali...






sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Chapter XIX

Fiquei parada por alguns minutos olhando os dois estirados no chão... 
Na verdade eu gostaria muito de pular na garganta de ambos e sacudir até que voltassem à consciência para que aí sim, eu pudesse lhes bater e descontar minha raiva! Mas não havia tempo... A regra número dois era desaparecer antes da polícia chegar e a número um... É nunca deixar testemunhas...
Era o que me faltava! Ter que roubar um carro para carregar dois pesos mortos. Agora eu tinha outra decisão difícil à tomar... Era óbvio que eu precisava voltar ao meu esconderijo, mas poderia levar aquele "companheiro de profissão" para minha casa? 


Se podia ou não a verdade é que eu o fiz. Primeiro arrumei uma cama e joguei o tal intruso e depois fui mimar meu gatinho em seu quarto. Ele acordou manhoso como uma criança de 5 anos e aninhou-se no meu colo e de  novo fiquei ofuscada por aquelas orelhinhas de gato ... Macias *-* muito macias... A verdade é que perdi a noção do tempo novamente e quem me despertou foi justamente Ricartto que agora se afastava de mim para se espreguiçar e se recompor. 

- Mon cher... Trouxe aquele homem para cá? 
-Trouxe. E daí? 
-Melhor eu verificar a saúde do nosso hospede. - Disse ele num sorriso que deixaria iludiria até um anjo, mas não me convenceu. E eu o segui.       

Foi com ainda mais falta de crença no que acontecia que presenciei Ricartto cuidar do assassino como se fosse um médico atencioso. Eu me aproximei e então uma coisa me hipnotizou: O cabelo dele! Macio liso como fios de seda negra espalhados sobre o peito nu que arfava com a respiração lenta, mórbida. 
Não, não! Não me façam perguntas. Não sei explicar porque aquela cena me chamou tanta atenção, talvez por ser algo totalmente novo... Eu jamais havia visto alguém tão interessante e ao mesmo tempo tão irritante. 

O simples fato de olhar para ele me incomodava. Queria que ele abrisse os olhos e falasse quem era, de onde vinha e principalmente me explicasse porque... Tinha nos olhos a cor dos meus. 
Eu não estava disposta a esperar nada avancei sobre ele e arranquei o capuz de sua cabeça. Ele abriu os olhos quase que subitamente e agarrou-se ao meu braço que segurava sua capa. 

-Devolva. - Disse ele deixando as longas madeixas negras lhe encobrirem quase toda face. 
-Quem é você? - Perguntei sem fazer nenhum caso de sua ameaça.  
-Sou igualzinho você, com a diferença de que não roubo capas! 

Por algum motivo estranho me senti ofendida, e por pouco não enfiei-lhe a capa garganta abaixo. Joguei-a no rosto dele com tanta força que se ele não a tivesse segurado poderia mesmo se machucar mais ainda. 
Agradeço a hospitalidade. - Levantou-se deixou um envelope sobre a mesa e antes que Ricartto ou eu pudéssemos impedir desapareceu num redemoinho de poucas pétalas. Ricartto foi o mais ofendido, enquanto ele rogava pragas em francês, italiano e sei lá qual idioma logo fiquei entediada: 
- Tá com fome? - Perguntei como se nada tivesse acontecido. 

E não era mentira, para mim nada de importante havia acontecido. Vê-lo sumir foi como perder todo meu interesse nele, e agora sua figura misteriosa não me atrairia mais atenção que uma das lâmpadas amareladas nos postes de luz. 
Só me pergunto se essa habilidade em me interessar e desinteressar por detalhes é algo humano... Se for, deve ser de um humano louco. Talvez um pedaço daqueles que eu já comi.