segunda-feira, 16 de abril de 2012

XXVI Lápide

"Uma promessa de concreto rígida em decalque.
Um som agudo e suave que atravessa a alma torpe.
Pego pelos olhos do morto.
Palavras frias, secas
como um cadáver de 2 anos."

Havia uma promessa entre nós. Não me esquecerei dela. Mas antes... Que som é esse?!
É um barulho baixo que vem crescendo... Barulho de metal se arrastando, faíscas luminosas são expulsas e junto com elas o cheiro de fumaça e madeira queimada... Algo estala em brasas... Conheço esse cheiro... Parece cheiro de... Uma locomotiva gigantesca estaciona atrás de mim sobre os trilhos. A poeira, a fumaça o barulho infernal do metal em atrito forçando os velhos freios... E entre a fumaça senti o cheiro de rosas. Alguém desce da plataforma...


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A locomotiva parou, eu desci na plataforma e fiquei atrás dela atônito, estático. Como diabos ela tinha chegado ali?! Nem percebi meu suor escorrendo frio pela testa meu coração batia tão acelerado que poderia substituir toda uma sinfonia de percussão. Ela permanecia de costas ajoelhada com o crânio no colo. Não fazia a mínima questão de se virar. 

-Marchello. - Ela disse como se suas palavras fossem construídas por sorrisos. Apenas sorrisos lânguidos e afiados. 

 "Eu não conheço nenhum Marchello" - pensei em dizer isso À ela, mas quando me dei conta já havia dito: -Sim? 

-Preciso enterrar um amigo. Você conhece a saída?

-É claro. Afinal, eu projetei quase todo este lugar. Mas, não precisa ir tão longe... Se for um amigo querido posso lhe oferecer um túmulo no Valsa Dantesca... Quem é- 

                               -Caprice nº 05.- Eis que o som nos cortava o diálogo, e a alma também. Olhei por trás da Sol...E reconheci o violino, os trapos de vestimenta... Desmaiei. 


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Marchello viu os restos mortais de Narciso. E desabou no chão inconsciente. Um marmanjo daquele tamanho desmaiando que nem mocinha com vertigem... Não entendo isso! Desde quando cadáveres tem permissão para ser sensível?!

Agora eu tinha três problemas: A promessa que fiz à Narciso, Ricartto preocupado comigo e Marchello o único que conhecia a saída desse lugar estava estatelado no chão. ¬¬' 

Ele acordou alguns minutos depois péssimo. Nauseado, choroso. Levou um lenço branco aos olhos e chorou copiosamente. Alguns minutos depois dessa cena bizarra uma criatura ainda mais bizarra de cabelo roxo e sapatilhas vermelhas veio com seis homens mascarados com máscaras clássicas "comédia e tragédia" Eles vinham trazendo um caixão luxuoso. Prontos para um funeral. Parecia uma peça ensaiada com dias de antecedência. Recolheram os restos mortais em silêncio, iniciaram a marcha, Marchello passou o braço por cima dos meus ombros e me abraçou enquanto andávamos ele continuava com cara de choro incessante. Saímos em direção à uma parede não sei como ela se moveu. Abriu-se. Dando passagem à um imenso jardim sacra. Parecia um memorial. Haviam muitos túmulos perdidos nele. E havia um para cada artista que pisou no palco do Valsa Dantesca. E o de Narciso estava lá. Apenas o nome. A lápide fria, rígida. Descemos o caixão. Marchello estremeceu jogou uma rosa sobre o caixão... Eu... Não pude segurar o violino de Narciso por mais tempo, ele parecia chamar pelo verdadeiro dono. Pulei dentro da cova, abri o caixão e o coloquei lá. Junto dele. Viveram juntos até a morte, depois dela também hão de ficar. 

Agora eu pensava em como iria sair da cova... Marchello idiota estava tão desolado que nem se deu conta que a cova era funda demais, não deve nem ter notado que pulei lá dentro. Apenas senti o arranco de ser puxada para fora rapidamente. Olhei para o louco que me segurava ofegante com as órbitas ressaltadas e era Ricartto que se agarrava aos meus pés: 

-Não vá com ele! Fique! Não me deixe só! 

Coloquei a mão na cabeça de Ricartto pesadamente e disse: 
-Não vou a lugar nenhum.

Ele se acalmou logo quando eu disse isso. Resignou-se ao papel de acompanhante de um funeral. Ficou, sério, cerimonialista, tentou parecer triste e essa atitude agradou Marchello. Ambos se resignaram. A terra negra cobriu o caixão. Ficou estufada, recém remexida; Eu tomei a Lápide e escrevi de punho próprio:

 "Jaz aqui um homem que viveu para a música e cuja morte foi dedicada à um único amor"

Todos os meus pensamentos, todos as idéias que circundavam a respeito de Narciso enterraram-se ali junto com ele.
O silêncio dominou todos nós. Os homens mascarados e a jovem de sapatilhas vermelhas se retiraram em fila. Nós três permanecemos em frente ao túmulo... Marchello ainda parecia ressentido. Ricartto permanecia respeitoso. E eu... me espreguicei e perguntei: 

-Vamos comer?