terça-feira, 29 de novembro de 2011

Chapter XVI Humilde servo

E depois daquele momento único, as noites nunca mais seriam as mesmas...
E o tempo passou novamente a ser contado em dias, horas minutos e segundos. A pontualidade assustadora com a qual ele me despertava todas as manhãs tocando gentilmente minha mão todas as manhãs sussurrando: "Bela manhã 'mon cher'. Os pássaros estão a cantar lá  fora."

- E que culpa eu tenho disso?! 

-Quel est votre désir mon cher? - Ele repetia incansavelmente sorrindo sempre. 

E nesse momento meu estômago me lembrou que havia algum tempo que eu não me alimentava como devia graças a presença de Ricartto. É claro que eu não faria isso por um humano ou um motivo qualquer... Mas já disse e repito: A minha vida por um gato. 

- Je crois savoir. - Ele simplesmente saiu.

Ele voltou em questão de minutos com uma bandeja muito bem ornamentada e realmente bonita com um lanche delicado, bolinhos de carne bem temperados, acompanhados de chá de ervas campestres. Eu simplesmente fiquei olhando para aquilo por alguns minutos como se ele tivesse me colocado uma bomba ou servido veneno para comer.

-Não está ao seu agrado mon cher? 
-Não vou tocar isso. 
-Me permita.

Ele escolheu um dos bolinhos segurou entre os lábios e me ofereceu. Você aceitaria? 

Curiosidade. Essa palavra explica todas as minhas ações. O novo e inesperado, o misterioso atrai. 

E o inesperado aconteceu: - Eu senti o sabor. O sabor da comida humana que não me saciara desde o dia da minha morte, e que tão pouco tivera sabor. Eu reconheceria este toque espesso e suave em até mil anos longe. Tenho absoluta certeza de que seja o que for nesta receita, há sangue humano misturado entre as ervas indianas, entre o cravo e a pimenta do reino.  Enquanto ele me servia um a um cuidadoso, e eu os devorava. Prazer tal que não pudera imaginar conseguir algum dia... Me foi oferecido entre os lábios de um humilde servo. 

Ele pegou um guardanapo de algodão muito branco e bordado nas laterais, limpou minha boca. 

-Com licença 'mon cher'.

Eu apenas comecei a me perguntar como ele conseguia fazer tudo tão habilmente em questão de minutos, e coisas que eu nem sabia que possuía ganhavam existência e requinte. Mistérios felinos... Ricartto... Certamente é fonte da minha curiosidade neste momento... 

E enquanto isso... Uma lista gigantesca de pedidos, requisitações  se acumulava nos meus contatos... Era o dever enviando seu chamado noturno... Exigindo que eu ostentasse o manto que me fora concedido pela morte, e o manchasse de vermelho. Entre lâminas afiadas que brilham como os cometas, segundos antes de sua explosão ceifando vidas sem piedade...  

"Algum humano  velhaco disse: Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje." 

Eu realmente devia ter ido. Mas não fui. E assim, uma bela tarde Ricartto como um humilde e prestativo servo, se dispôs a organizar e separar o útil do inútil. E assim... Ele chegou aquela lista... Meu convite para o baile dos imortais... Meu trabalho...  Minha amada maneira de existir... Minha festa no inferno... Agora eu tinha uma decisão à frente... O que farei com este humilde servo? 





Chapter XV La porcelaine chaton II

E foi assim que ao resolver acordar me deparei com um completo estranho ao meu lado. 
Ele simplesmente era a personificação de uma elegância que somente os seres mais nobres possuem: Com a pele alva como uma porcelana fina, bem vestido por uma camiseta de manga longa preta coberta por um colete de cetim branco, e uma calça social branca. Reconheci os olhos acinzentados e as orelhas de gato... 
Aquela criatura à minha frente não era mais um mero gato de rua. Em algumas horas havia se transformado quase que misticamente em um belo gatinho de porcelana, sim, como os bibelôs que costuma-se comprar... Silencioso, elegante, exalando no próprio perfume o que os humanos costumam chamar de "Sedução".
O dicionário costuma dizer que sedução é a definição daquilo que atrai naturalmente, por ser proibido ou por conquistar simpatia. Nesse caso, certamente... Essas orelhas me seduzem. 

Ele se curvou levemente e me estendeu a mão para que eu levantasse. Eu a segurei na esperança de descobrir se seriam tão macias quanto costumam ser as patinhas dos gatos persa... Decepcionante... Estavam cobertas por luvas de pelica. 

-Mon cher... Diga-me qual o seu desejo e eu o farei
-Você tem nome?
-Ricartto. 
-Ricartto? O que você é? Um humano, um gato, um demônio... O que é você?

Ele ajoelhou-se frente a mim e disse: - Sou apenas seu humilde servo. Atenderei todos os seus desejos, basta  que diga-me... Qual o seu desejo "mon cher"?

-Desejo saber o que é mon cher. ¬¬'
Ele sorriu serena e malignamente: - Minha querida, em francês.
-Por que francês? Seu nome é italiano não é? Aliás, até onde me lembro, ainda estou na itália devem ter alguns meses... ou anos??
-Meu pai era francês, os melhores perfumes são franceses como também as mais belas artes. Dedicarei minha existência para que apenas idiomas nobres e suaves sejam merecedores de tocar seus ouvidos "mon cher".

Como todos podem estar certos, não entendi absolutamente nada. A não ser que ele tinha muito orgulho da descendência francesa em sua linhagem. Bem, não me importo. A única coisa que realmente quero é tocar aquelas orelhas tão macias e quentinhas como só os gatos são. Estendi as mãos. Ele se encurvou deitando a cabeça sobre meu colo e eu fiquei brincando com as orelhas e o cabelo dele tão liso e macio *-*