domingo, 4 de dezembro de 2011

Chapter XVIII O Alarme

A boa notícia é que agora eu tinha Ricartto para lidar com minha lista. 
A má notícia... É que ele continuava me acordando as 6 da manhã ou mais cedo dependo da missão.

Hoje simplesmente ele escolheu uma missão particularmente irritante à princípio pois era considerada relativamente fácil: Matar um certo ex-mafioso. 

A mesma maldita ladainha de sempre: Uma vez da máfia sempre da máfia. Afinal... Ninguém foge da família.
Basicamente mais um riquinho sujo e corrupto que merecia morrer cedo... Mas quem poderia decidir quem vive e quando morre? 
A máfia pode.  

E lá estava eu em plena madrugada em frente ao portão da mansão Pietra II com Ricartto ao meu lado aguardando instruções. 

-Suba no telhado. 

-Je crois savoir 'mon cher'.

E eu entrei... Pela porta da Frente. No hall de entrada da casa. Simplesmente ouvi a famosa barulheira de telhas sendo arremessadas longe e disparos quase mudos de uma possível calibre 38, entre outras de calibre maior. Logo em seguida estalos abafados e o baque de corpos arremessados contra o chão. E assim, o lixo armado da guarda havia sido retirado. Agora faltava recolher apenas... Senti meu coração  parar de bater enquanto um calafrio me impedia de olhar para cima. 

Pétalas vermelhas... Pétalas de rosas? Pétalas... Uma chuva de pétalas dançavam no ar... Caíam graciosas como se dançassem uma valsa, ou simplesmente estivessem ao som de alguma música sacra como a Ave Maria de Schubert. 
De alguma maneira macabra outro fragmento relapso de memória me manteve paralisada: 

Em um segundo logo após morrer e ter a alma devolvida ao corpo por aquela lâmina... Eu fui levada à um prédio branco, uma sala branca com uma cama branca, lençóis brancos um arsenal de lâminas e câmeras. Em um momento, tudo estava tranquilo. E um alarme soou. 

"O projeto está fora de controle. Evacuem o prédio imediatamente." 

A enfermeira que estava ao lado do meu corpo trancou a porta. E foi até a janela de vidro onde normalmente ficam os observadores que assistem a um paciente ou cirurgia. Antes que ela descesse as persianas havia uma chuva de pétalas como naquele dia... E eu não conseguia me mover nem um centímetro e levantar para ver quem estava vindo no meio delas. Mas fosse quem fosse era jovem e trazia sede de vingança consigo... Além de muita dor... A tristeza era tanta que me fez chorar.


E agora... Esse sentimento estava de volta. Finalmente levantei os olhos para cima, e quando nossos olhares se cruzaram uma lágrima escorreu de ambos os lados. 
Finalmente entendi o significado da palavra desespero. 
O desespero de não conseguir entender exatamente o que se passa tem um efeito enfurecedor sobre mim. 

Era um homem de cabelos longos e negros. Vestido dentro de uma capa negra bordada com fios de linho vermelho que formavam arabescos nas bordas. Não podia ver o seu rosto. Apenas seus olhos vermelhos...?! Diferente dos meus, eles transmitiam alguma emoção. Mesmo que fosse uma única: Dor de uma tristeza imensa que invadia quem quer que nos seus olhos olhasse. As longas madeixas negras esvoaçavam para fora do capuz, acompanhando a dança das pétalas vermelhas e flutuantes até que... Eu movi e me atirei de um salto enfurecido com uma lâmina em punho na direção dele. 

Uma delas chocou-se contra a lâmina da minha espada e desmanchou-se em sangue. 
Finalmente recobrei-me. Agora furiosa por compreender pouco ou quase nada: "Eliminar obstáculo" "Ele é um obstáculo". 

Nenhum dos lados disse sequer uma palavra. A luta foi muda. Uma guerra de pétalas chocando-se contra minha lâmina que por vezes quase me feriu... Minha própria espada contra mim?!  Ele desviava como podia, até que o encurralei na escada. Pronto... Bastava mais um golpe e estaria tudo terminado... A única coisa que me irritava mais do que o evento anterior era o fato de que o chão daquela mansão era tão polido quanto um espelho. Lutar contra alguém sobre um espelho provoca uma maldita confusão ainda mais com aquelas pétalas! 
-Vou acabar logo com isso.
Ele olhou para baixo e disse: Certo... Falou a pessoa que está usando a calcinha do Pica-pau. ¬¬' 

Eu olhei para baixo e lembrei que eu vestia saia como parte do costume. Eu realmente não via nada de anormal nisso. Mas por algum motivo ainda mais estupido que todo evento acima descrito senti vontade de explicar ou simplesmente retrucar: - Cala boca. O pica-pau é muito legal!  
Eu gosto do pica-pau... Woodpecker... Dá vontade até de assobiar a abertura do desenho. 

E foi nesse momento que apenas o vi ser arremessado escada abaixo. E as pétalas caíram imediatamente e desmancharam-se em gotas... E esse cheiro é... Provei uma delas:-Sangue.

Somente depois dessa descoberta impressionante que me lembrei de tentar saber como ele havia ido parar lá embaixo sem eu ter feito absolutamente nada para provocar isso... Olhei ao meu lado e não vi nada. Somente vi duas pessoas rolando no chão entre socos, tapas e roupas rasgadas. Pelo tecido branco absorvendo o sangue como uma esponja tive certeza de que era Ricartto quem estava brigando com ele. 

Eu desci as escadas calmamente um degrau de cada vez enquanto os dois se engalfinhavam no chão... No meio do caminho lembrei que tinha que matar o ex-mafioso. Subi novamente até um dos quartos e é claro que ele não estava lá dormindo. Normalmente essas mansões tem um cômodo chamado de "banker" um quarto à prova de tudo com apenas uma entrada e uma saída. Um local seguro... Claro... Se você não for estúpido o bastante para colocar uma fechadura eletrônica nele. Um curto do lado de fora e vc será obrigado a abrir por dentro imediatamente... Ou morrerá sem oxigênio. 

E vejam-só quem saiu de lá em menos de 10 minutos?! 
Ele estava sozinho lá. 

-Você não tinha uma esposa? 
- Ela morreu... Negociar eu posso pagar o dobro! 

Eu parei para pensar e analisar os fatos, então parei de ouvir o que ele tanto choramingava no minha frente como uma hiena encurralada na frente do predador. 

Havia sangue, e um assassino. O sangue estava fresco, e o alvo não era esse porco na minha frente. Ele estava seguro sozinho, mas até hoje de manhã a esposa estava com ele.

-Humano nojento. 
Ele parou de falar quando falei. 
-O que disse? 
-Humano nojento. 

Pegando uma arma escondida abaixo do casaco ele começou a atirar, desviei fácil. Na verdade estava com muita raiva... Alguém disse que a raiva aumenta a eficiência do cérebro e do corpo. Acho que o Hulk é a prova disso... Ou quase... O cérebro dele não é lá essas coisas... na verdade ele estava bem burrinho no ultimo gibi que eu li...

O fato é que fiz ele atirar na caixa de força e a luz se foi. Restaram apenas os clarões dos tiros no escuro que ele continuava disparando tentando me acertar. Quando finalmente estava na frente dele as balas acabaram. Mordi o braço dele e arranquei um bom pedaço, ele gritou desesperado se debatendo contra as paredes no escuro procurando uma saída... Não havia... Nunca há. É como Aquela música da noiva cadáver: "Vai vai chegar sua vez, a morte virá. não importa o freguês" e quando ela não vem... Manda um mensageiro. Aqui estou minha amada madrasta... 

 Já comi melhores mas dane-se tô com fome. 

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Chapter XVII A última Taça

Nos encontramos ao cair da tarde, sob o sol avermelhado e ardente que costuma desaparecer entre as montanhas... 
Eu havia o convocado a me fazer companhia à beira de um penhasco. Havia uma mesa redonda pronta para um eventual chá da tarde e no centro havia uma única taça de cristal vazia.

E ele veio. Novamente com o mesmo traje branco sob o colete preto, o olhar misterioso, as orelhas... Preciso parar de divagar sempre que penso nessas lindas orelhinhas de gato *-*. Vinha trazendo a tiracolo um livro bem pequeno e um óculos discreto no bolso. Qualquer um não teria notado... Mas eu vi. Analisá-lo diariamente já havia se tornado uma rotina. 

Ao chegar ele não deixou de cumprir nenhuma das cerimônias, se encurvou e me saudou: Mon cher. 

-Não sou sua querida. Sou um cadáver que anda, fala e devora humanos, que ainda não perdeu todos os hábitos humanos. Uma assassina, um monstro. Posso devorá-lo agora mesmo. 


-Mon cher, desde a noite em me tocaste cada célula do meu corpo lhe pertence. Se servir de alimento para vós for o seu desejo; terei prazer em cumpri-lo. 


-Meu desejo é que você faça uma escolha que eu não quero fazer por você. 


Ele pareceu surpreso. Eu puxei uma das cadeiras e disse: 


-Sente-se. 


Ele obedeceu prontamente. Fui me sentar, ele fez menção de levantar-se e puxar a cadeira cavalheirísticamente e ordenei: -Não se mova. 
Ele permaneceu obediente. 


-Coma. Lhe concederei uma oportunidade que não tive e nem costumo dar. Eu mesma preparei. Espero sinceramente não ter errado nas medidas, já que é bem difícil cozinhar apoiando-se apenas no olfato e em um livro. 


Ele provou, e sorriu. 


-Está divino. Errou a consistência dos bolinhos de grãos-de-bico - disse ele comendo o ultimo deles. - Mas qualquer coisa preparada por suas delicadas mãos, certamente será maravilhosa mon cher. 


-Ainda não sei o que você é, mas tenho certeza de que humano não é. Nenhum humano em sã consciência comeria algo preparado por um cadáver. Ou sequer viria aqui e permaneceria tão calmo. 


-Que acompanhamento devo servir quando fores me devorar mon cher? Deseja algo especial? Como devo decorar o prato? Prefere uma grande bandeja de prata ou me tomará vivo e agonizante entre seus braços? Imagino que cetim, não agrade o seu paladar... Nesse caso... 


Ele retirou o colete e começou a abrir a camisa um botão de cada vez.


Peguei a taça do centro da mesa, bati a unha contra a borda e a quebrei. Com um dos cacos dilacerei meu pulso e enchi a taça com meu sangue. Ele já não era tão vermelho, possuía um tom de vinho que desafiava os tons mais escuros, enquanto a taça refletia em sua borda estilhaçada os últimos raios solares sendo engolidos pelas sombras... E eu a ofereci a Ricartto. 


- Vê esta taça? Se a provar será a ultima. Nunca mais tornará a sentir sabor algum que não o de sangue e carne humana. Sua fome será macabra, e sua existência será regida por uma valsa demoníaca. 


-Se eu a provar... Poderei servi-la por toda eternidade? 
-Se a provar. Não terá outra escolha.


Ele se aproximou e colocou suas mãos sobre as minhas segurando a taça entre elas, e aproximando os lábios a entornou para si, e quando já não havia mais sangue na taça ele lambeu as bordas cortando os lábios e a língua por fim, lambeu minha mão até o local do pulso. Em seguida como os cavalheiros da idade média beijou minha mão. 


-Me concede a honra desta dança? - Disse ele me puxando para junto de si. E eu não parecia mais que uma boneca sendo abraçada sem qualquer emoção no olhar. Enquanto ele rodopiava comigo nos braços. 


Por fim, entediada eu respondi: - Não sei dançar. Vamos para casa. 


-Comme vous voulez mon cher.


Não me bastava estar só. Não me bastava existir eternamente. Era necessário um mimo... Um gatinho de porcelana se encaixava perfeitamente no meu mundo sombrio. 
E agora... Eu tinha arrastado mais um para o baile dos imortais... Mais um para o inferno.





terça-feira, 29 de novembro de 2011

Chapter XVI Humilde servo

E depois daquele momento único, as noites nunca mais seriam as mesmas...
E o tempo passou novamente a ser contado em dias, horas minutos e segundos. A pontualidade assustadora com a qual ele me despertava todas as manhãs tocando gentilmente minha mão todas as manhãs sussurrando: "Bela manhã 'mon cher'. Os pássaros estão a cantar lá  fora."

- E que culpa eu tenho disso?! 

-Quel est votre désir mon cher? - Ele repetia incansavelmente sorrindo sempre. 

E nesse momento meu estômago me lembrou que havia algum tempo que eu não me alimentava como devia graças a presença de Ricartto. É claro que eu não faria isso por um humano ou um motivo qualquer... Mas já disse e repito: A minha vida por um gato. 

- Je crois savoir. - Ele simplesmente saiu.

Ele voltou em questão de minutos com uma bandeja muito bem ornamentada e realmente bonita com um lanche delicado, bolinhos de carne bem temperados, acompanhados de chá de ervas campestres. Eu simplesmente fiquei olhando para aquilo por alguns minutos como se ele tivesse me colocado uma bomba ou servido veneno para comer.

-Não está ao seu agrado mon cher? 
-Não vou tocar isso. 
-Me permita.

Ele escolheu um dos bolinhos segurou entre os lábios e me ofereceu. Você aceitaria? 

Curiosidade. Essa palavra explica todas as minhas ações. O novo e inesperado, o misterioso atrai. 

E o inesperado aconteceu: - Eu senti o sabor. O sabor da comida humana que não me saciara desde o dia da minha morte, e que tão pouco tivera sabor. Eu reconheceria este toque espesso e suave em até mil anos longe. Tenho absoluta certeza de que seja o que for nesta receita, há sangue humano misturado entre as ervas indianas, entre o cravo e a pimenta do reino.  Enquanto ele me servia um a um cuidadoso, e eu os devorava. Prazer tal que não pudera imaginar conseguir algum dia... Me foi oferecido entre os lábios de um humilde servo. 

Ele pegou um guardanapo de algodão muito branco e bordado nas laterais, limpou minha boca. 

-Com licença 'mon cher'.

Eu apenas comecei a me perguntar como ele conseguia fazer tudo tão habilmente em questão de minutos, e coisas que eu nem sabia que possuía ganhavam existência e requinte. Mistérios felinos... Ricartto... Certamente é fonte da minha curiosidade neste momento... 

E enquanto isso... Uma lista gigantesca de pedidos, requisitações  se acumulava nos meus contatos... Era o dever enviando seu chamado noturno... Exigindo que eu ostentasse o manto que me fora concedido pela morte, e o manchasse de vermelho. Entre lâminas afiadas que brilham como os cometas, segundos antes de sua explosão ceifando vidas sem piedade...  

"Algum humano  velhaco disse: Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje." 

Eu realmente devia ter ido. Mas não fui. E assim, uma bela tarde Ricartto como um humilde e prestativo servo, se dispôs a organizar e separar o útil do inútil. E assim... Ele chegou aquela lista... Meu convite para o baile dos imortais... Meu trabalho...  Minha amada maneira de existir... Minha festa no inferno... Agora eu tinha uma decisão à frente... O que farei com este humilde servo? 





Chapter XV La porcelaine chaton II

E foi assim que ao resolver acordar me deparei com um completo estranho ao meu lado. 
Ele simplesmente era a personificação de uma elegância que somente os seres mais nobres possuem: Com a pele alva como uma porcelana fina, bem vestido por uma camiseta de manga longa preta coberta por um colete de cetim branco, e uma calça social branca. Reconheci os olhos acinzentados e as orelhas de gato... 
Aquela criatura à minha frente não era mais um mero gato de rua. Em algumas horas havia se transformado quase que misticamente em um belo gatinho de porcelana, sim, como os bibelôs que costuma-se comprar... Silencioso, elegante, exalando no próprio perfume o que os humanos costumam chamar de "Sedução".
O dicionário costuma dizer que sedução é a definição daquilo que atrai naturalmente, por ser proibido ou por conquistar simpatia. Nesse caso, certamente... Essas orelhas me seduzem. 

Ele se curvou levemente e me estendeu a mão para que eu levantasse. Eu a segurei na esperança de descobrir se seriam tão macias quanto costumam ser as patinhas dos gatos persa... Decepcionante... Estavam cobertas por luvas de pelica. 

-Mon cher... Diga-me qual o seu desejo e eu o farei
-Você tem nome?
-Ricartto. 
-Ricartto? O que você é? Um humano, um gato, um demônio... O que é você?

Ele ajoelhou-se frente a mim e disse: - Sou apenas seu humilde servo. Atenderei todos os seus desejos, basta  que diga-me... Qual o seu desejo "mon cher"?

-Desejo saber o que é mon cher. ¬¬'
Ele sorriu serena e malignamente: - Minha querida, em francês.
-Por que francês? Seu nome é italiano não é? Aliás, até onde me lembro, ainda estou na itália devem ter alguns meses... ou anos??
-Meu pai era francês, os melhores perfumes são franceses como também as mais belas artes. Dedicarei minha existência para que apenas idiomas nobres e suaves sejam merecedores de tocar seus ouvidos "mon cher".

Como todos podem estar certos, não entendi absolutamente nada. A não ser que ele tinha muito orgulho da descendência francesa em sua linhagem. Bem, não me importo. A única coisa que realmente quero é tocar aquelas orelhas tão macias e quentinhas como só os gatos são. Estendi as mãos. Ele se encurvou deitando a cabeça sobre meu colo e eu fiquei brincando com as orelhas e o cabelo dele tão liso e macio *-* 

domingo, 27 de novembro de 2011

Chapter XIV O Gato de Porcelana

Desse dia em diante, o som em meu refúgio mudou de timbre, mas não para o tipo barulhento e incômodo de insatisfação que ruge nas cidades humanas. Era silencioso, elegante, de vez em quando ouvia-se um som agradável ecoar... Era novamente o som produzido por aquele instrumento que ele viera segurando consigo durante todo percurso sem reclamar uma só vez, não dissera qualquer palavra. Realmente era um gato.

Ah sim! reconheço esta melodia... É um tango. Era a primeira vez que eu ouvia um Tango sendo tocado em gaita harmônica. Parecia ser sua composição favorita. Realmente ele ficava onde eu havia deixado e pouco se movia exceto quando estava tocando, e quase sempre estava tocando. Silencioso, não ousava me encarar.
Realmente os gatos são criaturas cuja graça e charme é concedida por natureza; sempre considerei essa aparente e temporária timidez felina como alguma estratégia maravilhosa, certa cautela, da astúcia objetiva e pura que só se encontra em certos felinos e serpentes.

De manhã eu lhe servia um pires de leite. ao meio dia oferecia-lhe de tudo, e nada o aprazia. Na verdade cansei-me de sair e encontrar o prato intocado. Até que um dia lhe ofereci sardinha crua, e pela primeira vez ele se levantou do seu sofá e veio em minha direção.

Após isso ele lambeu os dedos e não saiu do meu lado. Li em um livro de que para conquistar um felino você só precisa de paciência, um pires de leite e um prato de sardinha... Bem, aqui estamos. Ele realmente precisava de um banho, mas todo mundo sabe... Que os gatos não gostam de água.
Eu não me importaria de sair arranhada, mas simplesmente não gostaria de fazer essa crueldade com ele. E decidi que ele ficaria como quisesse.

Navegando na internet, enquanto lembrava da aquelas orelhas tão macias na cabeça dele só conseguia pensar em uma coisa: "Paf Paf" -apertar-. E vi algo que ele merecia. Ao cair da noite, Fui comprar. Realmente não sou muito sociável, mas definitivamente eu queria dar aquilo a ele. Bem, acho que se eu sorrisse um pouco ou tivesse os olhos mais rasos, ao invés desse olhar pouco expressivo, mas parecia que a morte havia me concedido seu manto negro; é realmente uma honra não é mesmo?

E foi entre olhares reprovadores, suspeitos que entrei na loja desafiando o vendedor a me ofender ou jogar alguma coisa em mim SE tivesse coragem... Ele não o fez foi justamente o único elemento que faltou, ah sim, isso e o detalhe de que uma das atendentes não tirava os fones de ouvido, ruiva com pouca questão do que o colega de trabalho falava ou não. Era metaleira. Bem, se existem pessoas que tem meu respeito são aquelas que tem a decência de usar fones de ouvido, e não mudam de comportamento só porque tem outras pessoas torcendo o nariz. Ela terminou de guardar os cd's na sua sessão e deu uma "bundada" no colega que pensava se me atenderia ou não, e ele caiu sentado. Ela era mais forte do que ele, não fazia juiz ao tipo físico esteticista do mundo humano no século 21... Ela era gordinha, me lembrava bastante um rouxinol que vivia na janela do meu refúgio durante a manhã cantando, redondinha e baixinha... Fiquei mais uma vez surpresa, como poderia existir uma humana tão bonita quanto meu querido rouxinol?

Me olhou bem nos olhos e disse: Boa noite moça vai levar o que?

- Quero a coleirinha em forma de gravata.

Ela não fez perguntas foi lá e tirou da vitrine. O rapaz parecia atordoado, falando baixo para ela que era muito caro, que precisava ser reservado com antecedência pois era uma peça muito fina... Bem, se não fosse essa minha audição aguçada... Realmente eu não teria ouvido nada. Ela olhou pra ele e disse: - Ah vá te lascar! A moça quer comprar, ninguém vendeu esse troço em mais de 6 meses e você fica aí com o C* dando choque. Ela voltou sorrindo.

-Embalagem pra presente?
-Pode ser.

Ela embalou eu tirei um maço de notas de 100 do bolso e coloquei exatos 2 mil e 100 reais sobre o balcão.

-Moça é só 2 mil.
-Os 100 são pra você. Acho que vocês chamam de gorjeta quando se é bem atendido.

Virei as costas e saí andando. Ela veio atrás de mim querendo dizer: Não posso aceitar, mas a despistei entre a escada e uma loja de roupas.

Ela voltou pra loja resmungando: "Porra, nem pra aparecerem clientes assim quando eu trabalhava no restaurante ¬¬' Aliás, Quando é que meu patrão vai me deixar voltar pra lá? Que coisa chata ajudar o irmão mais novo ¬¬' pelo menos posso ouvir meu rock em paz." - Acabei ouvindo tudo isso quando já estava a quilômetros de distância do shopping... Algum tempo depois finalmente cheguei ao meu refúgio. Talvez eu devesse ouvir menos...

-Psiu! Gatinho... Vem cá!
Ele estava deitado no sofá olhou pra mim e sentou. Eu fui até ele e mostrei o presente. Ele não esboçou reação nenhuma... Até eu colocá-lo no pescoço dele. Foi como se uma injeção de vida tivesse sido injetada direto no cérebro dele. E descobri que ele sabia falar não só aquele idioma, mas o meu também.

-Você me quer? Vai me deixar atender todos os seus desejos?
-Orelhas... *-* ...Paf paf... Estendi as mãos para tocá-las quase que instintivamente.

Ele abaixou a cabeça para que eu as alcançasse. Eu as peguei. Eram mesmo tão macias quanto pareciam e eram reais!?

Ele pegou minhas mãos e acariciou o próprio rosto com elas. Por fim disse: - Preciso de um banho. Eu o acompanhei até o banheiro e ele disse: Eu cuidarei disto desta vez "Mon cher". Em 60 segundos ele estava nu. Rápido... Muito rápido. Eu virei as costas e saí quase que roboticamente... Que coisa assustadora era aquela? Os livros não disseram nada sobre isso. Espere, acho que nenhum livro explicaria aquelas orelhas, ou mesmo essa situação; exceto uma imaginação muito fértil de quem tem o estômago muito forte, ou algum livro de ficção científica...

E foi exatamente assim que eu caí no sono. Não por cansaço, mas por tédio. Que banho lento!

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Chapter XIII O Gato e a Gaita

 Tomei um banho não me pergunte porque, mas gosto muito de banhos. Aposto que seria igual ou pior se tivesse morrido afogada, a verdade é que por culpa de Narciso acabei me acostumando com o jeito fácil dos vivos levarem os dias, então seguir esses sistemas "naturais" de sociedade é muito sem sentido... Mas extremamente viciante... Gosto videogames... Enfim, depois dessa sequencia de reflexões pouco importantes subi. Como o eco era muito fino e não muito distinguível imaginei que não passasse de algum gato faminto. Então levei um pires de leite.

Mas quanto mais eu me aproximava do ponto de origem do eco que agora tornava-se um som mais claro porém desconhecido. Eu não conseguia parar de imaginar que instrumento poderia produzir tal sinfonia. O chão está úmido... Dá pra ver pelas poças de lama dessa pocilga que chamam de rua. Agora me dei conta de que andei muito e estou a quilômetros do ponto de partida... Mas que tipo de lugar fétido e insalubre é esse? Bem, pela situação dos estabelecimentos trancados durante o dia e esse fedor de secreção humana calculo que mais à frente tem um prostíbulo.

Mas uma rua antes uma entrada de viela pobre sentado sobre um monte de caixotes seminu e molhado com uma aparência não tão interessante tem alguma coisa... A princípio pensei que fosse algum humano vagabundo, e mas notei que o som vinha de lá. E fui me aproximando. Antes que eu chegasse pois ainda estava um pouco longe um homem pareceu tentar arrastá-lo para dentro do depósito e como ele não ia o homem tentou usar força e nesse momento vi algo que não esperava... Mas achei lindo... Ele deixou cair aquilo que segurava entre as mãos e o rosto era um objeto bem pequeno e cumprido, a parecia-se bastante com um canivete... Ele golpeou estômago do tal homem e como ele ficou sem ar rapidamente o derrubou no chão quebrando a coluna do indivíduo e segurando seu braço arrancou com os dentes um a um dos seus cinco dedos e quanto mais ele se debatia mais sangue jorrava.

No final ele disse: "Vous n'êtes rien. Qu'il mérite pour les mettre ces doigts sales sur un objet aussi minceque moi."


Pegando de volta seu objeto ele o limpou e eu fiquei surpresa... Saiu um som! Definitivamente não era um canivete... Ou ele o teria usado...! 
Finalmente o alcancei... E vi algo impressionante...  Algo que me ofuscou completamente... Ele tinha na cabeça escondidas entre o cabelo molhado orelhas de gato... Ele tinha olhos acinzentados como de um filhote de gato recém-nascido que não se decide entre o azul-céu e verde-mar. Eu o definitivamente queria levá-lo para casa... E levei. 


Tecnicamente eu sou um cadáver e não tenho vida, mas tudo que se alimenta e faz alguma digestão é vivo de alguma maneira... Ou simplesmente por convivência ou simples ato de assistir os humanos peguei esse hábito  de usar essa palavra também.  Sou obrigada a admitir que apesar de tanta porcaria no mundo humano... Eles também tem algumas coisas que agradam até mesmo a mim.


Dou minha vida por um gato ou cachorro... Hoje por um gato. 


Chapter XII Vazio

Realmente nunca entendi o significado da palavra "saudade".
Tudo que sei, é que a ausência de Narciso pesou... Pesou no espaço imenso como uma pétala de rosa pesa sobre a retina de um cadáver recente... E como nada grita mais alto que o silêncio... Você passa a ouvir mais do que o de costume... Os grilos estão cantando lá fora... E os humanos... Continuam seguindo com suas vidas. Não tenho o hábito de julgar os humanos só porque são humanos; mas definitivamente os odeio. Se eu dissesse que os amo aí sim estaria agindo como um deles... Mas só porque você odeia uma coisa... Não quer dizer que não a salvaria... Não é?

Agora estou olhando para o teto... Me falta a vontade necessária para impulsionar meus músculos e me sentar. De modo que devo ficar quase inerte no chão por algumas horas, que logo se transformariam em dias. Não é tão ruim. É bom... Como agora estou morando em um esconderijo subterrâneo, não faz tanta diferença entre minha "residência" e um caixão debaixo da terra, exceto... Que é bem maior... Muito maior.

Mas quando nos rendemos ao vazio... Um simples eco é capaz de nos incomodar tão profundamente quanto o som de uma britadeira no próprio crânio. E foi esse eco que me lembrou que eu precisava me movimentar um pouco ou meu corpo logo iria parar de bombear o sangue morto com tanta eficácia e minha carne poderia necrosar. Não é uma ideia que me agrade muito... Na verdade não gosto nem um pouco dela.

Uma coisa é ter um olhar mortal que diz apenas "eu vou devorá-lo" "não adianta gritar... Eu não vou ouví-lo... E ninguém vai" a outra bem diferente é feder como um defunto velho.

Mas, voltemos ao tal eco que eu ouvi há pouco. Minha audição é muito aguçada... Veio lá de cima... Tenho certeza.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Chapter XI Partida

E quando ele disse isso... Eu não tinha a mínima ideia do que significava... Mas tive certeza de que ele esperava algo mais do que uma frase de mim:

- Amor não é aquela coisa humana que eles dizem que sentem um pelo outro e saem distribuindo como se fosse água e levando em troca tapas na cara?

Ele abaixou a cabeça.

-É isso mesmo. E também a um desejo insano e obsessivo pelo objeto amado. O que nos faz perder a noção do tempo... E acabamos virando estranhos, completos loucos para os outros enquanto nos achamos perfeitamente normais...

-Quem pode amar um cadáver como ama um violino? Quem pode desejar tocar um corpo sem calor que se movimenta sem explicação alguma e se alimenta dos vivos?

-Eu posso.

-Você sabe que não tenho a mínima ideia ou noção do que você quer dizer, e que nunca vou te entender ou agir como você... Não tem?

-Eu sei.

Ele se aproximou estendeu a mão para mim e instintivamente recuei. Ele insistiu e dessa vez deixei, não queira entender porquês nesse momento. Nem eu mesma entendi porque deixei que me tocasse e muito menos porque o levei aquele lugar... Aquela fachada abandonada com 3 túmulos cercados por arame farpado com um velho casarão aos pedaços no fundo. O menor deles todo branco era o meu. Não havia um nome na lápide, uma data ou qualquer coisa. Mas era ali... Aquele lugar que nítido aparecia nos meus pesadelos. Talvez fosse a curiosidade ocupando o ócio. O que ele faria a seguir?

- Eu estava aí dentro. Faltou ar, faltou água, faltou vida no meu corpo. E mesmo assim eu voltei. Te salvei porque quis de te ouvir tocar. Mas você não pode me salvar.

-Está curiosa sobre o que eu quero fazer? Eu digo... Eu queria tomá-la a força. E morrer tocando para você.

-Isso também é conhecido como Necropedofilia. Tecnicamente segundo as regras humanas nunca fui uma adulta apesar de parecer uma jovem, eu morri aos 6 ou 7 anos? Não lembro mais... Será que foi mais que isso? Os mortos não fazem aniversário.

-Psssssssiu! Chega de dados e tudo que não importa, sou um idiota apaixonado.. E muito burro! Amei, amei a música e virei lixo social, amei um cadáver e não sei mais o que sou.  Só vou fazer uma coisa.

Ele se jogou em cima de mim e arrancou a minha mascara.  E ele pressionou seus lábios nos meus. Suave... Ele era quentinho como os vivos costumam ser, por alguns momentos eu quis absorver aquele calor. Era quente como a música que ele fazia. Mas ele parou. Provavelmente porque a sensação era a mesma de ter uma boneca em mãos. Ou... Não. Pela primeira vez eu não consegui prever o que ia acontecer a seguir, ou explicar de uma maneira didática.

-É por causa dessa vontade cruel que vou embora. Te amar de longe, sem te machucar.

- Admito que sinto uma quantidade baixa de dor, mas um homem não vence uma assassina canibal e morta-viva apenas com palavras e alguns socos dotados de testosterona.

-Mas as palavras são como a música... Alcançam a alma e machucam por dentro. Ou curam a solidão a dor, o ódio... De quem te ama intensamente... Quando eu morrer você arruma uma lápide pra mim?

-Você não teme a morte?

-Temo a vida. Vivo, não sou digno de ti. E morto, pelo menos estaremos unidos pela dor.

Ele virou as costas.

-E o que escrevo no seu epitáfio?

Ele sorriu e disse: "Jaz aqui um músico louco cuja vida foi dedicada à música e cuja morte dedicada a um único amor."

O vento passou, arrebatou algumas folhas e os cabelos dele. E assim ele partiu sei lá para onde.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Chapter X Narciso - II

Alguns minutos depois eu estava diante do excelentíssimo senhor primeiro ministro.
-Primeiro ministro? A operação foi um absoluto sucesso, assim como eu planejei.

-Ótimo! Já mandei transferir o dinheiro para a conta combinada.
-Eu sei... Eu vi. E vi também que você não cumpriu sua parte do combinado totalmente... Se bem que apenas isso eu seria capaz de relevar. O que não aceito; é o mero detalhe descarado de que você além de me roubar um terço do pagamento do presidente, não pagou sua parte, e ainda por cima teve a ousadia de colocar a federal atrás de mim. Tem noção do que você fez?

-Não sei do que está falando... Eu de modo algum a trairia.
-Ah não sabe? Vou refrescar sua memória então: O presidente simplesmente deveria ter me pago o dobro do que você me ofereceu para sequestrar a pirralha presidencial. E assim você poderia fazer um minucioso levantamento de provas e extratos e poderia acusá-lo de roubo aos cofres públicos no mês seguinte. E por consequência de uma morte "misteriosa" do vice-presidente você assumiria o cargo. Brilhante... Se não você pelo detalhe de que você vai morrer agora.

-O que?! Olhe pense bem, posso lhe dar um cargo! 10 vezes mais! -Aquela expressão típica enlouquecida, falsa e ambiciosa que é estampada na cara de todos os políticos nos folhetins de campanha também estava estampada na cara dele... Isso me irrita.

-O presidente não me pagou o dobro. E sim quatro vezes mais. Sabe o que significa certo? Sim, ele pagou pela sua cabeça. Conhece o meu lema... Eu te avisei... "Até 4 é o limite do preço;  sendo que alguém há de morrer".

-Vamos negociar... Pelo amor de deus!
-Quem? Olha, não fique citando estranhos no meio de uma conversa intima entre "amigos". Sabe, tem uma coisa interessante no seu sotam... Fiz todas as ligações daqui, da sua casa. Foi assim que o presidente entendeu minhas indiretas. Viver para quê? Amanhã você não terá onde cair morto.

Eu disse tudo isso com um olhar sórdido e psicótico. Eu tinha noção do quanto aquilo era perturbador, mas a essa altura já havia se tornado... Parte do trabalho.
Foi divertido abrir o peito dele. Morder um coração humano ainda palpitante é uma sensação única!

E foi assim que cheguei em casa exausta. E havia um bilhete sobre a cama do jovem músico. Eu sei, que aparentemente não é certo alguém da minha estatura chamar outro de condições físicas semelhantes de jovem ou velho, mas simplesmente não tenho a mínima noção do tempo. Para mim velhos e novos se confundem. São todos iguais!
O bilhete dizia: "Eu sei do que você vive estou no beco"

Pela primeira vez ele não estava tocando quando cheguei... Ele segurava em mãos uma flor branca.

-E então? Vai fazer algum exorcismo com essa florzinha aí?

Ele veio em minha direção e me deu a flor, por alguns instantes relutei em pegá-la. Por fim a segurei.

-É um narciso branco. Meu nome também é Narciso.

-E o que isso importa?
-É que... Me apaixonei por você.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Chapter IX Narciso

Minha missão mais recente foi encomenda de um primeiro ministro.
Objetivo: Sequestrar a filha do presidente.

As vezes eu me pergunto porque é tão fácil tirar uma adolescente da escola... Provavelmente é porque eles sempre estão loucos para sair de lá.
Admitam que  deixar um cartão com meu símbolo sobre a cama dela é bem chamativo... Como bom político o presidente tentou abafar o caso e manter a empresa longe... Ignorando o detalhe de que eu tenho o hábito de usar a imprensa como meio de contato.

Um sinal pirata embaralhou e tomou conta de todas as fontes de recepção do país. Nele continha simplesmente um aviso: Atenda o telefone. Depois de 3 toques finalmente ele percebeu que eu não estava brincando... E atendeu. Finalmente veio minha pergunta favorita após alguns segundos de discussão:

-Qual seu preço? Eu pago o triplo.
-Interessante oferta senhor presidente... Fale mais.
-Peça o que quiser apenas devolva minha filha viva.
-Está bem. Eu a devolvo... Mas, se quiser saber porque fiz isso. Eu recomendaria rastrear este telefonema ao invés do sinal pirata que está sendo enviado... 60 segundos lhe parece tempo suficiente para fazer isso? Responda senhor presidente!

-Sim... Se a machucar eu vou...!
-Eu sei. Me diga, está interessado em fazer negócio comigo ou não?
-Sim. Faça o que precisa ser feito.
-Óimo. Anotou o número do telefone que foi exibido certo? Mande o Policial Kevin tão lindo e ruivo do seu lado, apagar os primeiros 4 dígitos e terá o número da conta na qual deve depositar o pagamento. E nada de gracinhas...
Ah policial Kevin? Como vai sua esposa? Já falou com ela hoje? Eu aconselharia a ir para casa... Ou ela pode morrer.

Kevin começa a ligar para sua casa... O telefone está mudo. Ele se desculpa e sai correndo.
5 segundos depois aparece na tela do meu monitor:      "--TRANSAÇÃO CONCLUÍDA--"

Enviei as mesmas quantias para 20 contas laranjas em 20 países diferentes. E todas foram sacadas ao mesmo tempo.
-Muito bem senhor presidente! Parece que restam apenas 10 segundos antes que termine de rastrear a ligação... Bem, é o suficiente. Sua filha está com a esposa do policial Kevin. Eu cortei as linhas telefônicas da região melhor ir buscá-la pessoalmente.

--------------------Desliguei------------------------

Chapter VIII Violino

Não desperdice meu tempo com suas lamúrias... Todo mundo tem um preço, é claro que eu também tenho o meu. Se a palavra "Lema" fizer algum sentido para mim ele é caçar, matar comer carne humana e tocar violino.

Sim, eu descobri de onde vinha o som... Descobri que havia um rapaz jovem com roupas de teatro maltrapilhas que tocava naquele beco vazio dia e noite.
Era belo, mas sua paixão pela música o deixara louco. Tocava por horas... Dias sem desafinar até desfalecer faminto e exausto. Resolvi cuidar dele simplesmente para que pudesse ouví-lo tocando... Eterno e tão cheio de ternura...

Talvez... Assim como o som do violino trouxe uma parte do meu passado... Talvez um dia devolva o meu futuro.
E quem diria! Não era tão débil quanto parecia... Em agradecimento aos meus cuidados ele não fazia perguntas... Nem mesmo quando eu voltava para casa coberta de sangue humano; e ainda cometeu a gentileza de me ensinar a tocar.

Chapter VII Crucifixo

Como o vento frio e traiçoeiro que traz a poeira para dentro de casa no verão, esse instrumento me devolveu um fragmento do meu passado.

A mulher que gerou meu corpo se suicidou dois dias antes...
Três dias antes o homem que se casou com ela me presenteou com um violino  que no fim era grande demais para mim. Cinco dias depois ele parecia doente e preocupado.

Nesse dia ele e eu jantamos juntos, tomamos leite quente ele e eu, ele cantou para mim... Ele tinha uma voz bonita e calma como uma brisa gentil... Não lembro do seu rosto... Lembro que ele sempre andava com um crucifixo no pescoço. Eu gostava do crucifico... E ainda gosto, por isso o carrego no pescoço comigo.

Quando caí no inferno vi como a morte me alcançou.

Ele berrava para as paredes: "NINGUÉM VAI LEVÁ-LA!" - E me sufocou com um travesseiro rapidamente...
Recolheu meu corpo já sem vida e o pôs dentro de um caixão cheio de rosas, cruzou minhas mãos, arrancou o crucifixo do próprio pescoço e o colocou envolta delas.

O shinobi o matou sobre mim... Meu cadáver provou o sangue do meu progenitor...
E Aquela lâmina me fez regressar do mundo dos mortos.

Assim como os mortos não devem voltar, os que voltam certamente não poderão regressar...
E assim, presa entre o céu e o inferno; nem viva nem morta. Um monstro com aparência humana... Uma Ninja Gotica.

Não me interprete mal, não sou deprimida, e nem estou dizendo que todos os góticos são como eu.
Estou dizendo que sou um resultado caótico, uma parte fragmentada do mundo gótico anexado ao mundo ninja.

sábado, 29 de outubro de 2011

Chapter VI A Nota Musical

Como loucos que se atiram de um precipício os três me atacam, e eu não reajo. AINDA.
... A lâmina de Ryú é a mais afiada em matéria de cortar, é fácil ver como ela atravessa facilmente meu coração. Só não [e tão rápida, quando o gancho de esquerda do Bob, que me arremessou 3 metros à frente e nem tão pesado quanto é o chute esmagador de Juliet quebrando minhas costelas nesse exato momento...

E nem mesmo essas três habilidades excepcionais são capazes de fazer meu corpo ficar inerte no chão. Como uma marionete de ventríloquo fantasma lentamente volto a ficar de pé. E Ryú não pensa... Com a espada em punho se atira na minha direção frente a frente. Embora não tenha sido esse o seu erro mais fatal. E sim o fato de deixar sua lâmina tão trêmula quanto ele.
E por isso sou capaz de detê-la e quebrá-la somente com as mãos. E com o pedaço da lamina da sua própria espada dilacerei sua garganta.

Juliet grita desesperada, e se atira na minha direção Bob faz o mesmo na direção oposta. Que tolice... Já sei o que pretendem fazer. Um salto baixo e miserável é o bastante para fazer com que ambos chocassem um no outro seus golpes.

-Duplo nocaute? Fácil assim? Na verdade vocês sempre foram um tédio.

Bob ainda está meio acordado: - Poupe a vida dela.

-Você não se lembra do que o Pai ensinou? Primeiro as damas.

Amarrei uma linha fina preparada com cerol especial no pescoço dela e caminhei na direção dele. Que implorou: - Piedade... Pelos velhos tempos...

-Os velhos tempos que me ensinaram a fazer isso.

Enrolei a linha em uma vela acesa e a mesma linha o imobilizei de modo que se mexesse se cortaria. Peguei 3 galões de gasolina, abri e deixei derramar sobre todo chão do galpão. Saltei e sentei na janela mais alta. Alguns minutos depois Juliet acorda e ao me ver, sua ação natural era prevista... Bob Tenta gritar: "Não" e corta a boca. Ela não perceberia um fio tão fino... Se levantou de súbito e com esse movimento simples, a linha derrubou a vela e decepou própria sua cabeça. Eu fiquei para ver o incêndio até as chamas subirem e consumirem os cadáveres e com eles os vestígios dessas lembranças.
E após o caos eu ouvi um som. Composto pela nota que me deu um nome um dia... Seguida por várias outras... Eu me lembro... Dessa nota musical... Vem de um violino.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Chapter V Fome

A fome que sinto é uma fome bárbara e brutesca... Uma fome natural... Ou nem tanto.
É claro que todos diriam que uma coisa como eu não deveria existir... E eles tem razão... Eu não devia estar aqui, os mortos não devem voltar.

O problemas é que já estou aqui. E não tenho para onde voltar... Não mais. Poderia ser outro no seu lugar agora... Ninguém mandou me tirar do sério...

Ah sim! Quanto a essas três figuras atrás de mim atônitas e trêmulas diante desta cena grotesca, eles são meus companheiros. Ninjas, lobos para saciar a sede de poder dos magnatas. As ferramentas das sombras: Juliet, Ryú e Bob. Eu sei o que você o que você está pensando... Eu não sou asiática, nem Juliet ou Bob. Bem, a culpa  é do mestre... Ele que veio para cá e fez discípulos à punhos de ferro... Mas depois eu explico direito essa história... Esse momento crucial... É o marco histórico da minha existência... A primeira vez que fui sincera... A primeira vez que mostrei minha verdadeira face...

Bob: - QUE PORRA É ESSA SOL?!

Juliet: - É um demônio! Um demônio matou nosso mestre e a possuiu!

Ryú: - Sol... Fala alguma coisa!

- Vocês três... Não tem noção de como a carne humana crua... É saborosa

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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Chapter IV Mãe & Pai

Eu não sei o que tirou-me a vida...
Mas tenho certeza que uma lâmina a devolveu.
Dizem, que mãe é aquela que dá vida e protege...
Nesse caso, esta espada que tenho em meus punhos agora... É minha mãe.

Havia um shinobi à minha frente naquele dia... Do tipo velhinho asiático. Ele disse:
"Eu serei teu Pai de hoje em diante"

Eu acreditei nele. E sabia que não estava mais sozinha... O que eu não sabia, era que aquele velhinho a quem eu me apegara tanto, trajado como um ninja, não só me transformaria em tudo que sou hoje, como também era ele o culpado da minha desgraça...

Chapter III O mundo dos mortos "Estribilo"

- Como foi a viagem?

- AAAAAAAAAAAAAAAAAAH!

-EI! Não corre não! temos que costurar seus membros! 

E eu desmonto no chão como se fosse um quebra cabeças.

-Quem são vocês?!
-Ah eu sou o carinha que pergunta como foi a viagem. 
-eu sou a mulher (eu acho) que costura os membros. Olha, se não costurar vai acabar ficando só os ossos!! Hahahaushuahushuaha!!!

-Que lugar é esse?!
-O mundo dos mortos! Seja bem vinda mocinha!
-Não! Não! Eu sou muito nova! 
- Todo mundo é! - Fala uma velhinha no canto do salão. 

-Ah pequenina! A morte é bela! Ruim é ficar na estrada, naquele inferno por onde você passou ... Mas vai acabar gostando de ficar por aqui...

-Hoje vamos fazer um baile! Para comemorar sua chegada! 
-Qual é o seu nome? 
-Meu nome? Qual era mesmo...? - As imagens e os rostos conhecidos estão desaparecendo pouco a pouco... - Eu ... Não sei.
-Ah tudo bem! Aqui ninguém lembra o nome mesmo! - Tenta me acalmar uma mumiazinha simpática. 

Começo a chorar... E todos começam a chorar junto comigo. 

-Isso é tão triste! -Um dos esqueletos assoa o nariz com os trapos da múmia...

Era tudo tão bizarro e surreal que era engraçado... Finalmente eu vi... Eu juro que vi! Eu vi sim! A beleza na morte... Trevas luminosas e cálidas como jamais se imaginou... E já me sinto em casa... Nesta versão avessa do mundo dos vivos... Tão mais aconchegante... Mas antes que eu pudesse sorrir...
                                                               Eu voltei. 


Chapter II O mundo dos mortos

Era quente e frio, nada estava em seu lugar. Em cima era embaixo e embaixo é em cima; direita é esquerda e esquerda é direita e tudo voa... Você flutua... Existir dói... E você cai no infinito... Teus medos te cercam, teus monstros renascem.
Arrancaram meu braço!
-Devolvam meus membros! Não sou uma boneca! Sou uma cabeça flutuante...
Continuo caindo... Estou com fome...
Eu quero minha mãe!
Que frio! Frio! Quente.. Muito quente! Alguém me ajude!
Um barulho oco... O baque de um corpo...
Estou me vendo... Não me joguem aí! Não quero ficar aqui para sempre!
Alguém me tocou... Um esqueleto?!

Chapter I - Soledad

Minha tragédia se passa antes que eu pudesse lembrar o meu nome...
Não me lembro quase nada... Lembro apenas que quando criança eu era feliz.
Um dia eu adormeci no céu que pode ser uma cama quente e uma boa comida após a canção de ninar...
E despertei no inferno. Literalmente no inferno.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A arte de odiar II

Amor e Ódio 

Eu te amo com todo ódio que te tenho!
Amo com o mais suave dos venenos
 Com o mais doce sentimento!
Com a dor mais profunda de alguém
 Que chora em silêncio.

       Eu te amo...
Com todo ódio que te tenho!
Amo com a fragilidade de uma flor!
Amo com a força de um guerreiro.
      
      Eu te amo...
      E te odeio...
Com todos os sentimentos...
Como a tempestade que passa,
Com o assobio de um leve vento.

     Eu te odeio,
  Porque te amo  demais
Este amor que te tenho!

(LENI MARTINS) autora do poema



A arte de odiar

Eis que lhe afirmo que odiar é uma arte pura! 


Poucos de nós pararam para pensar em quão sublime é a declaração de ódio... Profunda, gritante e ardente Cuja chama não se pode extinguir entre simples palavras. Muito pelo contrário, a cada suspiro do odiado ela se intensifica... 
Surgindo então o desejo de sangue. Roubar-lhe os dias em alguns segundos e sentir o sangue quente escorrer entre os dedos... O que todos julgam como pesadelos lhe soa tão doce! 
Juro que quem não odeia jamais amou! O ódio é justamente o amor desfigurado como o Nosferatu, que um dia foi belo... Sincero, inocente... Hoje é o Frankenstein com suas partes costuradas a fio da dor, repulsa e arrependimento!
Não se conquista uma centena de amigos sem se conquistar pelo menos a metade ou o dobro em inimigos.
Não se ama o oposto se ele não lhe soou estranho na primeira vez e o encantou. 
Humanos tem tendência esconder o que amam por medo de serem julgados... Eu lhes declaro que Amo o ódio que tenho pois tenho o direito de sentí-lo! E não posso renegá-lo! 


Ah! Que ódio eu sinto! Ah que arte maligna é essa da crença! 


Como pude deixar atarem meus braços e pés e ainda vendarem meus olhos?! 
Óh vós que me desprezais por essa declaração sublime, esperai! Eis que lhes mostro meus motivos! Juro que se viceis o que eu vi também se juntaria a mim nesta cantiga!


Criança pequena cujo pai desceu a cova quando esta ainda era muito nova... 
Criança inocente que mente por medo de castigarem suas costas 
Criança pequena que em reza pediu para que dela cuidassem 
Criança que cuja mãe iludida e casada novamente sofreu maus tratos 
Eis que as boas lembranças são soterradas com cobranças e xingamentos 
E os que estão de fora apontam: São crentes!
Que crença é essa que te sufoca e faz desejar a morte enquanto ainda criança?!
Não meus pequeninos! Quebrai os grilhões da ignorância! Se o teu deus te ordena amar porque sufocas? 
Acaso queres impor amor à força? 
Não meus pequeninos, não perdoarei aqueles que sacrificam a própria vontade de viver e roubam a minha! 
Sim! Eu odeio! Odeio porque fomos traídos e enganados! Nos manipularam como quiseram e os nossos restos mortais ficaram ao relento!


Odeio aqueles que matam e ferem em nome de um deus! Tenham um motivo melhor! Admitam que são gananciosos! 
Matem em seu nome! Tudo é comércio... Alma é comércio, salvação se compra por algumas gramas de ouro.


Odeio porque tenho o direito de odiar. Juro... Juro que quem nunca odiou jamais foi capaz de amar!