Toda bailarina é uma
boneca que caminha na ponta dos pés.
Nenhuma boneca é menos que perfeita.
E tudo que é perfeito é estático.
Jamais se altera.
E toda perfeição beira a loucura
Quem disse isso? A bailarina disse.
Nos dias que se passaram após o funeral de Narciso. Ricartto e Marchello se comportavam como se fossem amigos de longa data andavam juntos, discutiam possibilidades de reforma da área destruída do teatro. Alheia a tudo isso a bailarina continuava ensaiando sem música. Isso me irritou. Eu queria vê-la dançar ao som de uma linda valsa. Decidi comprar um piano novo para o teatro.
Foi cansativo. Primeiro precisava pensar em que tipo de piano deveria comprar, que marca seria adequada? Que modelo? Qual o tamanho? Marchello saberia responder tudo isso. Tenho certeza. Ele é pianista, certo? Espere, mas não é ele quem irá tocar o piano que irei mandar? Nesse caso... Estou dando um presente a ele? .-. Então... É simplesmente ridículo estar perdida dentro desta loja!
Voltei ao Teatro. Ele estava totalmente vazio. Ah sim, Marchello queria a opinião de Ricartto para escolher os materiais adequados para a reforma, tudo perfeitamente compreensível até aí, se os dois não tivessem ido à Carrara só para comprar mármore. Compreendo que é o melhor mármore do mundo, mas Carrara está no limite noroeste da Toscana. Mas se a pureza e a textura daquele mármore encantaram até Michelangelo, que usou blocos dali em várias de suas obras. Devem hipnotizar aqueles dois malucos. Eu não sei, mas tenho a leve impressão de que Ricartto teria ido até para o inferno se isso significasse poder sair da cidade. Preciso lembrar de perguntar a ele sobre isso ele está incomodado com alguma coisa. O que pode ser?
Enfim. Não foi difícil encontrar um artesão. Veneza está cheia deles! O pior que pode acontecer é que este velhinho simpático com cara de maracujá de gaveta e óculos redondos de lentes grossas ponha fogo na outra parte do Teatro, mas para que se preocupar? Isso não é importante, afinal, Marchello é um extintor ambulante não é mesmo?
-Então vovô? Há salvação para ele?
-Minha jovem... Não cuidar desta obra de arte seria um pecado imperdoável! Falamos de um Piano construído a 100 anos atrás onde foram construídos os “melhores Pianos de sempre” que se reconhece pela grande qualidade de todas as peças mas especialmente pela grande qualidade do “tampo harmónico”, ele é a peça responsável pela qualidade do som do Instrumento.
Olhei para ele me esforçando para fazer cara de alguém que compreendia exatamente o que ele estava dizendo, tentei imaginar a cara que Marchello faria. Não deu certo. Meu rosto terminou em uma careta terrível. O velhinho assustou-se, mas não o bastante para desistir de fazer o seu trabalho e se pôs a trabalhar entusiasticamente.
Teria levado um mês ou um ano? Mas eu dei algumas quantias altas o bastante para manter o ritmo dos ténicos que auxiliavam o velho artesão, e garantir a agilidade da entrega dos materiais necessários. Uma semana. Em uma semana estava pronto. O artesão preocupava-se em afinar o instrumento. Os técnicos aguardavam impacientes o término anciosos para receberem a ultima parte do salário. Estava pronto. Paguei o resto do que devia e despedi apressadamente o velhinho. Estou ficando com fome. E estou começando a ficar enjoada de comer fígado de gado crú... Cobri o Piano com um lençol branco. E saí do palco principal. Marchello estava chegando. Ele ia acabar fazendo uma cena dramática. O encarei séria quando ele entrou. Virei as costas e saí.
---------------------------------------------------------------------------------------------------------
Cheguei em casa finalmente. Se existe um lugar que posso chamar de "casa" esse lugar é o Valsa Dantesca. Havia algo diferente no ar, não sei o que era, mas não entendi o motivo do olhar ameaçador que Sol lançou sobre mim. Ela acha que pode ameaçar-me com os olhos e virar as costas?! Caminhei irritado em busca dela quando me deparei com um lençol branco cobrindo algo. Algo que antigamente costumava ser o lugar do MEU PIANO! Arranquei o lençol em pânico e ao vê-lo ali polido e afinado, não havia sequer um único arranhão que lembrasse o desastre no qual ele se transformara.
Acreditei que fosse um sonho ou um terrível pesadelo. Meu coração palpitava aos pulos cada vez mais alto enquanto eu percorria a madeira polida com as pontas dos dedos. Abri a tampa das cordas, olhei fixamente o painel e por fim abri a tampa das teclas, puxei o banco almofadado sentei-me diante delas estalei os dedos toquei minha sonata favorita: Mozart nº 16 em Do Mayor Allegro. Creio que a repeti umas ou vinte vezes? Na verdade... Esqueci do resto do mundo. Nem percebi que Violet havia chegado e bailava no palco alegremente, mas Sol percebeu. Quando essas duas haviam chegado ali...?!
---------------------------------------------------------------------------------------------------------
Ouvi o som do piano e voltei ao palco estive escondida nos bastidores, Eu estava certa afinal. Marchello acabou realmente fazendo uma cena dramática não foi? Pude ver a bailarinha dançar em tal perfeição seus minuciosos passos de boneca cheios de graça e precisão na ponta dos pés, envolvidos pela música alegre e sôfrega de Marchello... Foi o espetáculo mais belo que já presenciei. Se bem que eu nunca presenciei um espetáculo assim. Sem participar dele. Marchello havia parado de tocar, eu queria mais. Toquei seu ombro ele virou-se para mim com os olhos vermelhos, arregalados com a face manchada de lágrimas e um leve sorriso no rosto.
-Sol... Foi você que fez isso?
-Foi. E daí?
-Isso aqui é mesmo pra mim? Não é um engano ou algo assim?
-Você é burro? O piano é seu. Não é o meu nome que está gravado aí abaixo da tampa do teclado.
Ele levantou-se sério, parecia ofendido com a minha resposta. Pousou a mão pesadamente em meu ombro e puxou-me para junto de si prendendo-me em um abraço sufocante.Eu tive a reação de sempre... Fiquei estática. Paralisada deixando-me envolver naquele surto de Marchello, a bailarina sorria e continuava a dançar em volta de nós dois graciosamente e cada gesto dela trazia consigo as lembranças da música que Marchello havia acabado de tocar. Fechei os olhos por um instante e a imagem de Ricartto me veio à mente. Empurrei Marchello súbitamente para longe de mim, fazendo-o esbarrar na bailarina que perdeu o compasso de sua música invisível...
-Onde está meu gato?
Marchello recompô-se rapidamente com uma cara de puro espanto e disse: -Como assim? Ricartto não está com você?! Ele veio antes de mim. Disse que precisava lhe contar uma coisa muito importante. Isso já fazem dois dias.