sexta-feira, 30 de março de 2012

Chapter XXV Sussurro

Andei perdida entre paredes e colunas por horas, o som do violino de Narciso parecia um convite a permanecer perdida por toda eternidade.
E eu sabia que cedo ou tarde as notas morreriam bruscamente... 
Desaparecendo sem promessa de retorno.

Valsa Dantesca... Certamente é um lugar misterioso não parece tão imenso quando visto de fora, porém ouse aventurar-se sozinho em seu interior e pode jamais retornar. Apesar da aparência de desastre na entrada e no palco principal causado pelo incêndio há poucos dias, estes pilares permanecem sólidos e os corredores de uma limpeza impecável. Continuo vagando...
Ricartto há de estar preocupado comigo... Certamente já despertou e me procura desesperadamente... Espero apenas que não se perca também... Espere, espere! Ele é um gato. E os felinos jamais se perdem...

Paro de andar sem rumo um momento... O som morreu subitamente! A mesma sensação desagradável da primeira vez me toma os sentidos, totalmente em vão olho em volta buscando uma saída. Porém... Algo me chamou atenção. Na última encruzilhada seguindo em frente à direita.... O piso vermelho envernizado é perfeito e reluzente, porém... há um muro baixo... E algumas paredes estão em situação de ruína  algo absolutamente estranho para um local cujo proprietário é uma criatura irritante e cheia de frescuras como Marchello... Oras, já até sei o nome dele?! Que bobagem!

Meus passos não tem som. Apesar do piso ser extremamente liso não me condiciona risco e mesmo assim tropecei em algo. Olho para baixo... É um crânio. Parece que tropecei na cabeça de alguém que descansava ou não em paz.

O cadáver estirado com aquelas roupas nada me significava... Nem mesmo o violino sob a mão do morto. Mas estes olhos vazios de uma escuridão absoluta onde eu podia quase que fitar os olhos da própria morte... Se a morte é uma madrasta terrível ou não, uma coisa é certa: Ela sempre iguala seus enteados um a um. Devolvendo ao pó o que não deveria nem mesmo ter saído dele.

Caio de joelhos no chão. Abraçando o Crânio vazio em meu colo. o vento sopra gélido e mortal... Há um trilho de trem atrás de mim após o baixo muro branco... Isso pouco importa pois tudo que se ouve são meus sussurros entregues ao vento: Viveu pela música, ela lhe ceifou a vida. Agora somos iguais na morte... Cumpriu-se tua sentença... Eis que o espetáculo prossegue sem o violinista principal... Sem Narciso!






terça-feira, 13 de março de 2012

Chapter XXIV O som que morre part 2

Não importava o que acontecia, a imagem de Narciso tocando seu violino não saía mais da minha cabeça...
Eu poderia cortá-la fora, mas isso não me parecia uma garantia de que aquele som ia parar.
Estava passando do nível de agradável para atordoante...
O som não apenas ecoava em ríspidas arcadas que interrompidamente se entrecortavam, as vezes sublimes, as vezes brutais, mas ainda assim tinham um som que morria súbito suplicante.


O quarto onde me encontro é exageradamente luxuoso, dotado de um conforto exacerbado que me deixa desconfortável... Mas, Ricartto parece absurdamente feliz com aquela almofada gigantesca de veludo azul sobre a cama dele. Brinca com ela arranhando-a pulando e por mim adormecia cansado de sua brincadeira... Tão fofo! *-* 
Não consigo "desligar-me". O som não pára. E nada incomoda mais um cadáver animado que um som insistente. Pelo menos no meu caso é assim. Levantei-me em silêncio absoluto e saí do quarto verificando os corredores procurando a origem do som, sabendo que ao encontrá-la veria Narciso novamente... E de alguma maneira isso me incomodava. Deixava uma insegurança que senti poucas vezes, principalmente quando me apontavam uma arma desconhecida e eu não sabia que tipo de ataque viria, qual seria seu efeito? 

Não era como se Narciso fosse me atacar, ele não era burro! Ou será que iria? Mas o que estou pensando?! Que estupidez é essa? Porque estou lembrando do calor do beijo que Narciso me deu naquele dia?? Isso é totalmente irrelevante! Esse som que outrora era maravilhoso agora me parece uma ópera infernal! 

Estou andando entre os corredores de design barroco são tantos corredores divididos, cruzados entre si, tantos pilares alinhados que não consigo ver o final do lugar... Não havia notado que O Valsa Dantesca era tão grande assim... Certamente estou perdida. Poderia passar a eternidade perdida nesses corredores tudo bem pra mim se for desse jeito... 
Qualquer coisa é melhor do que ficar parada vendo Narciso tocar, ouvindo-o sem poder compreender o que ele tanto deseja mostrar com essa insistência em ser ouvido... Narciso... Irei encontrá-lo por tanto... Não pare de tocar!