domingo, 15 de julho de 2012

Chapter XXVII O Piano


Toda bailarina é uma boneca que caminha na ponta dos pés.
Nenhuma boneca é menos que perfeita.
E tudo que é perfeito é estático. Jamais se altera.
E toda perfeição beira a loucura
Quem disse isso? A bailarina disse.


Nos dias que se passaram após o funeral de Narciso. Ricartto e Marchello se comportavam como se fossem amigos de longa data andavam juntos, discutiam possibilidades de reforma da área destruída do teatro. Alheia a tudo isso a bailarina continuava ensaiando sem música. Isso me irritou. Eu queria vê-la dançar ao som de uma linda valsa. Decidi comprar um piano novo para o teatro.
Foi cansativo. Primeiro precisava pensar em que tipo de piano deveria comprar, que marca seria adequada? Que modelo? Qual o tamanho? Marchello saberia responder tudo isso. Tenho certeza. Ele é pianista, certo? Espere, mas não é ele quem irá tocar o piano que irei mandar? Nesse caso... Estou dando um presente a ele? .-. Então... É simplesmente ridículo estar perdida dentro desta loja!

Voltei ao Teatro. Ele estava totalmente vazio. Ah sim, Marchello queria a opinião de Ricartto para escolher os materiais adequados para a reforma, tudo perfeitamente compreensível até aí, se os dois não tivessem ido à Carrara só para comprar mármore. Compreendo que é o melhor mármore do mundo, mas Carrara está no limite noroeste da Toscana. Mas se a pureza e a textura daquele mármore encantaram até Michelangelo, que usou blocos dali em várias de suas obras. Devem hipnotizar aqueles dois malucos. Eu não sei, mas tenho a leve impressão de que Ricartto teria ido até para o inferno se isso significasse poder sair da cidade. Preciso lembrar de perguntar a ele sobre isso ele está incomodado com alguma coisa. O que pode ser?

Enfim. Não foi difícil encontrar um artesão. Veneza está cheia deles! O pior que pode acontecer é que este velhinho simpático com cara de maracujá de gaveta e óculos redondos de lentes grossas ponha fogo na outra parte do Teatro, mas para que se preocupar? Isso não é importante, afinal, Marchello é um extintor ambulante não é mesmo?

-Então vovô? Há salvação para ele?
-Minha jovem... Não cuidar desta obra de arte seria um pecado imperdoável! Falamos de um Piano construído a 100 anos atrás onde foram construídos os “melhores Pianos de sempre” que se reconhece pela grande qualidade de todas as peças mas especialmente pela grande qualidade do “tampo harmónico”, ele é a peça responsável pela qualidade do som do Instrumento.

Olhei para ele me esforçando para fazer cara de alguém que compreendia exatamente o que ele estava dizendo, tentei imaginar a cara que Marchello faria. Não deu certo. Meu rosto terminou em uma careta terrível. O velhinho assustou-se, mas não o bastante para desistir de fazer o seu trabalho e se pôs a trabalhar entusiasticamente. 

Teria levado um mês ou um ano? Mas eu dei algumas quantias altas o bastante para manter o ritmo dos ténicos que auxiliavam o velho artesão, e garantir a agilidade da entrega dos materiais necessários. Uma semana. Em uma semana estava pronto. O artesão preocupava-se em afinar o instrumento. Os técnicos aguardavam impacientes o término anciosos para receberem a ultima parte do salário. Estava pronto. Paguei o resto do que devia e despedi apressadamente o velhinho. Estou ficando com fome. E estou começando a ficar enjoada de comer fígado de gado crú... Cobri o Piano com um lençol branco. E saí do palco principal. Marchello estava chegando. Ele ia acabar fazendo uma cena dramática. O encarei séria quando ele entrou. Virei as costas e saí.

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Cheguei em casa finalmente. Se existe um lugar que posso chamar de "casa" esse lugar é o Valsa Dantesca. Havia algo diferente no ar, não sei o que era, mas não entendi o motivo do olhar ameaçador que Sol lançou sobre mim. Ela acha que pode ameaçar-me com os olhos e virar as costas?! Caminhei irritado em busca dela quando me deparei com um lençol branco cobrindo algo. Algo que antigamente costumava ser o lugar do MEU PIANO! Arranquei o lençol em pânico e ao vê-lo ali polido e afinado, não havia sequer um único arranhão que lembrasse o desastre no qual ele se transformara.

Acreditei que fosse um sonho ou um terrível pesadelo. Meu coração palpitava aos pulos cada vez mais alto enquanto eu percorria a madeira polida com as pontas dos dedos. Abri a tampa das cordas, olhei fixamente o painel e por fim abri a tampa das teclas, puxei o banco almofadado sentei-me diante delas estalei os dedos toquei minha sonata favorita: Mozart nº 16 em Do Mayor Allegro. Creio que a repeti umas ou vinte vezes? Na verdade... Esqueci do resto do mundo. Nem percebi que Violet havia chegado e bailava no palco alegremente, mas Sol percebeu. Quando essas duas haviam chegado ali...?!

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Ouvi o som do piano e voltei ao palco estive escondida nos bastidores, Eu estava certa afinal. Marchello acabou realmente fazendo uma cena dramática não foi? Pude ver a bailarinha dançar em tal perfeição seus minuciosos passos de boneca cheios de graça e precisão na ponta dos pés, envolvidos pela música alegre e sôfrega de Marchello... Foi o espetáculo mais belo que já presenciei. Se bem que eu nunca presenciei um espetáculo assim. Sem participar dele. Marchello havia parado de tocar, eu queria mais. Toquei seu ombro ele virou-se para mim com os olhos vermelhos, arregalados com a face manchada de lágrimas e um leve sorriso no rosto.

-Sol... Foi você que fez isso?
-Foi. E daí?
-Isso aqui é mesmo pra mim? Não é um engano ou algo assim?
-Você é burro? O piano é seu. Não é o meu nome que está gravado aí abaixo da tampa do teclado.

Ele levantou-se sério, parecia ofendido com a minha resposta. Pousou a mão pesadamente em meu ombro e puxou-me para junto de si prendendo-me em um abraço sufocante.Eu tive a reação de sempre... Fiquei estática. Paralisada deixando-me envolver naquele surto de Marchello, a bailarina sorria e continuava a dançar em volta de nós dois graciosamente e cada gesto dela trazia consigo as lembranças da música que Marchello havia acabado de tocar. Fechei os olhos por um instante e a imagem de Ricartto me veio à mente. Empurrei Marchello súbitamente para longe de mim, fazendo-o esbarrar na bailarina que perdeu o compasso de sua música invisível...

-Onde está meu gato?

Marchello recompô-se rapidamente com uma cara de puro espanto e disse: -Como assim? Ricartto não está com você?! Ele veio antes de mim. Disse que precisava lhe contar uma coisa muito importante. Isso já fazem dois dias.




segunda-feira, 16 de abril de 2012

XXVI Lápide

"Uma promessa de concreto rígida em decalque.
Um som agudo e suave que atravessa a alma torpe.
Pego pelos olhos do morto.
Palavras frias, secas
como um cadáver de 2 anos."

Havia uma promessa entre nós. Não me esquecerei dela. Mas antes... Que som é esse?!
É um barulho baixo que vem crescendo... Barulho de metal se arrastando, faíscas luminosas são expulsas e junto com elas o cheiro de fumaça e madeira queimada... Algo estala em brasas... Conheço esse cheiro... Parece cheiro de... Uma locomotiva gigantesca estaciona atrás de mim sobre os trilhos. A poeira, a fumaça o barulho infernal do metal em atrito forçando os velhos freios... E entre a fumaça senti o cheiro de rosas. Alguém desce da plataforma...


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A locomotiva parou, eu desci na plataforma e fiquei atrás dela atônito, estático. Como diabos ela tinha chegado ali?! Nem percebi meu suor escorrendo frio pela testa meu coração batia tão acelerado que poderia substituir toda uma sinfonia de percussão. Ela permanecia de costas ajoelhada com o crânio no colo. Não fazia a mínima questão de se virar. 

-Marchello. - Ela disse como se suas palavras fossem construídas por sorrisos. Apenas sorrisos lânguidos e afiados. 

 "Eu não conheço nenhum Marchello" - pensei em dizer isso À ela, mas quando me dei conta já havia dito: -Sim? 

-Preciso enterrar um amigo. Você conhece a saída?

-É claro. Afinal, eu projetei quase todo este lugar. Mas, não precisa ir tão longe... Se for um amigo querido posso lhe oferecer um túmulo no Valsa Dantesca... Quem é- 

                               -Caprice nº 05.- Eis que o som nos cortava o diálogo, e a alma também. Olhei por trás da Sol...E reconheci o violino, os trapos de vestimenta... Desmaiei. 


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Marchello viu os restos mortais de Narciso. E desabou no chão inconsciente. Um marmanjo daquele tamanho desmaiando que nem mocinha com vertigem... Não entendo isso! Desde quando cadáveres tem permissão para ser sensível?!

Agora eu tinha três problemas: A promessa que fiz à Narciso, Ricartto preocupado comigo e Marchello o único que conhecia a saída desse lugar estava estatelado no chão. ¬¬' 

Ele acordou alguns minutos depois péssimo. Nauseado, choroso. Levou um lenço branco aos olhos e chorou copiosamente. Alguns minutos depois dessa cena bizarra uma criatura ainda mais bizarra de cabelo roxo e sapatilhas vermelhas veio com seis homens mascarados com máscaras clássicas "comédia e tragédia" Eles vinham trazendo um caixão luxuoso. Prontos para um funeral. Parecia uma peça ensaiada com dias de antecedência. Recolheram os restos mortais em silêncio, iniciaram a marcha, Marchello passou o braço por cima dos meus ombros e me abraçou enquanto andávamos ele continuava com cara de choro incessante. Saímos em direção à uma parede não sei como ela se moveu. Abriu-se. Dando passagem à um imenso jardim sacra. Parecia um memorial. Haviam muitos túmulos perdidos nele. E havia um para cada artista que pisou no palco do Valsa Dantesca. E o de Narciso estava lá. Apenas o nome. A lápide fria, rígida. Descemos o caixão. Marchello estremeceu jogou uma rosa sobre o caixão... Eu... Não pude segurar o violino de Narciso por mais tempo, ele parecia chamar pelo verdadeiro dono. Pulei dentro da cova, abri o caixão e o coloquei lá. Junto dele. Viveram juntos até a morte, depois dela também hão de ficar. 

Agora eu pensava em como iria sair da cova... Marchello idiota estava tão desolado que nem se deu conta que a cova era funda demais, não deve nem ter notado que pulei lá dentro. Apenas senti o arranco de ser puxada para fora rapidamente. Olhei para o louco que me segurava ofegante com as órbitas ressaltadas e era Ricartto que se agarrava aos meus pés: 

-Não vá com ele! Fique! Não me deixe só! 

Coloquei a mão na cabeça de Ricartto pesadamente e disse: 
-Não vou a lugar nenhum.

Ele se acalmou logo quando eu disse isso. Resignou-se ao papel de acompanhante de um funeral. Ficou, sério, cerimonialista, tentou parecer triste e essa atitude agradou Marchello. Ambos se resignaram. A terra negra cobriu o caixão. Ficou estufada, recém remexida; Eu tomei a Lápide e escrevi de punho próprio:

 "Jaz aqui um homem que viveu para a música e cuja morte foi dedicada à um único amor"

Todos os meus pensamentos, todos as idéias que circundavam a respeito de Narciso enterraram-se ali junto com ele.
O silêncio dominou todos nós. Os homens mascarados e a jovem de sapatilhas vermelhas se retiraram em fila. Nós três permanecemos em frente ao túmulo... Marchello ainda parecia ressentido. Ricartto permanecia respeitoso. E eu... me espreguicei e perguntei: 

-Vamos comer?

sexta-feira, 30 de março de 2012

Chapter XXV Sussurro

Andei perdida entre paredes e colunas por horas, o som do violino de Narciso parecia um convite a permanecer perdida por toda eternidade.
E eu sabia que cedo ou tarde as notas morreriam bruscamente... 
Desaparecendo sem promessa de retorno.

Valsa Dantesca... Certamente é um lugar misterioso não parece tão imenso quando visto de fora, porém ouse aventurar-se sozinho em seu interior e pode jamais retornar. Apesar da aparência de desastre na entrada e no palco principal causado pelo incêndio há poucos dias, estes pilares permanecem sólidos e os corredores de uma limpeza impecável. Continuo vagando...
Ricartto há de estar preocupado comigo... Certamente já despertou e me procura desesperadamente... Espero apenas que não se perca também... Espere, espere! Ele é um gato. E os felinos jamais se perdem...

Paro de andar sem rumo um momento... O som morreu subitamente! A mesma sensação desagradável da primeira vez me toma os sentidos, totalmente em vão olho em volta buscando uma saída. Porém... Algo me chamou atenção. Na última encruzilhada seguindo em frente à direita.... O piso vermelho envernizado é perfeito e reluzente, porém... há um muro baixo... E algumas paredes estão em situação de ruína  algo absolutamente estranho para um local cujo proprietário é uma criatura irritante e cheia de frescuras como Marchello... Oras, já até sei o nome dele?! Que bobagem!

Meus passos não tem som. Apesar do piso ser extremamente liso não me condiciona risco e mesmo assim tropecei em algo. Olho para baixo... É um crânio. Parece que tropecei na cabeça de alguém que descansava ou não em paz.

O cadáver estirado com aquelas roupas nada me significava... Nem mesmo o violino sob a mão do morto. Mas estes olhos vazios de uma escuridão absoluta onde eu podia quase que fitar os olhos da própria morte... Se a morte é uma madrasta terrível ou não, uma coisa é certa: Ela sempre iguala seus enteados um a um. Devolvendo ao pó o que não deveria nem mesmo ter saído dele.

Caio de joelhos no chão. Abraçando o Crânio vazio em meu colo. o vento sopra gélido e mortal... Há um trilho de trem atrás de mim após o baixo muro branco... Isso pouco importa pois tudo que se ouve são meus sussurros entregues ao vento: Viveu pela música, ela lhe ceifou a vida. Agora somos iguais na morte... Cumpriu-se tua sentença... Eis que o espetáculo prossegue sem o violinista principal... Sem Narciso!






terça-feira, 13 de março de 2012

Chapter XXIV O som que morre part 2

Não importava o que acontecia, a imagem de Narciso tocando seu violino não saía mais da minha cabeça...
Eu poderia cortá-la fora, mas isso não me parecia uma garantia de que aquele som ia parar.
Estava passando do nível de agradável para atordoante...
O som não apenas ecoava em ríspidas arcadas que interrompidamente se entrecortavam, as vezes sublimes, as vezes brutais, mas ainda assim tinham um som que morria súbito suplicante.


O quarto onde me encontro é exageradamente luxuoso, dotado de um conforto exacerbado que me deixa desconfortável... Mas, Ricartto parece absurdamente feliz com aquela almofada gigantesca de veludo azul sobre a cama dele. Brinca com ela arranhando-a pulando e por mim adormecia cansado de sua brincadeira... Tão fofo! *-* 
Não consigo "desligar-me". O som não pára. E nada incomoda mais um cadáver animado que um som insistente. Pelo menos no meu caso é assim. Levantei-me em silêncio absoluto e saí do quarto verificando os corredores procurando a origem do som, sabendo que ao encontrá-la veria Narciso novamente... E de alguma maneira isso me incomodava. Deixava uma insegurança que senti poucas vezes, principalmente quando me apontavam uma arma desconhecida e eu não sabia que tipo de ataque viria, qual seria seu efeito? 

Não era como se Narciso fosse me atacar, ele não era burro! Ou será que iria? Mas o que estou pensando?! Que estupidez é essa? Porque estou lembrando do calor do beijo que Narciso me deu naquele dia?? Isso é totalmente irrelevante! Esse som que outrora era maravilhoso agora me parece uma ópera infernal! 

Estou andando entre os corredores de design barroco são tantos corredores divididos, cruzados entre si, tantos pilares alinhados que não consigo ver o final do lugar... Não havia notado que O Valsa Dantesca era tão grande assim... Certamente estou perdida. Poderia passar a eternidade perdida nesses corredores tudo bem pra mim se for desse jeito... 
Qualquer coisa é melhor do que ficar parada vendo Narciso tocar, ouvindo-o sem poder compreender o que ele tanto deseja mostrar com essa insistência em ser ouvido... Narciso... Irei encontrá-lo por tanto... Não pare de tocar!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Chapter XXIII O som que morre

Desejei saber o autor do som... Embora por alguma razão estranha tivesse a certeza de que seria ele... Meus pensamentos foram cortados por um ataque de fúria de Marchello: 

- Malditodesgraçadofilhodeumacadelasemmãe! A culpa é sua! - Marchello correu como uma criança corre atrás de quem rouba seus doces, e eu o segui andando calmamente. 

Quando cheguei até o palco principal ele estava discutindo com... N-Narciso! Não entendo... Pensei que Marchello ia matá-lo, mas... Está gesticulando e gritando por vez ou outra sacode Narciso pelos ombros...

-Maldição! Quer morrer?! Que estado é este?! O meu melhor músico parece um mendigo! Se parasse de tocar dia e noite não teríamos fama de assombrados! 
- Você disse que eu podia tocar quando quisesse. 
-Eu sei! Mas... Faça como quiser!
- Obrigado. 

Ele se reposicionou apoiando novamente seu velho violino e tocou... Tocou Paganini! Logo aquela sonata... Caprice nº 05 In minor. Minha sonata favorita... Ele esteve de costas para mim o tempo todo, e devia continuar assim. Decidi me afastar aos poucos em silêncio fui andando meus passos praticamente não tinham nenhum som... Fui me afastando e parei quando ouvi um acorde agudo, desafinado e desesperado como... É a alma que insiste em se apegar ao corpo, então a morte vem e estabelece a escuridão no olhar que outrora reluzia.
Voltei o rosto imediatamente, mas não havia nada lá. Narciso havia desaparecido no meio daquele acorde; e agora não restava nada. Nada além do silêncio perturbador após um som que morre antes de terminar sua sentença.

-Ricartto. –chamei. Ele demorou a  responder, e quando veio tinha o olhar perdido. Tão distante que pareciam vislumbrar algo maravilhosamente assustador.

-Sim querida?

Eu realmente odeio o sotaque francês que ele impõe misturado ao nosso idioma, mas... É como se Ricartto não fosse Ricartto sem o seu charmoso, porém detestado sotaque.

-Você... Quer leite?
Ele acenou positivamente com a cabeça e sorriu em seguida.

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“Uma tigela de leite humn... Minha mestra realmente acredita que uma tigela de leite pode resolver qualquer coisa... Se ela pudesse ler meus pensamentos... Saberia que não. Mas... Veria o quanto seu cuidado me alivia a dor...”

Nós dois estávamos andando em direção à saída quando nos deparamos com Marchello plantado no meio do corredor como uma coluna angular:

- Onde pensam que vão?
- Não pensamos, nós vamos para um hotel. – Respondeu ela.
- Não vão mesmo! Faço questão que fiquem sob meus cuidados. Veneza é bella, mas não é um lugar gentil para estrangeiros perdidos e perigosos.
- Não ligo.

 Ela respondia secamente olhando para fora na janela com tanto descaso da presença dele que Marchello rangia os dentes de puro despeito. Essa é uma das coisas que amo em minha mestra... A personalidade dela é tão... Diferente! E muda totalmente quando vê algo em que atrai seu interesse, e quando se desinteressa é a mesma coisa. É emocionante ver como ela oscila rápido entre o cruel e o inocente, o fofo e o grosseiro. De toda forma era divertido ver os dois se alfinetando. No começo odiei Marchello. Odiei a ponto de atacá-lo para matar. Como ele ousava brincar com a ignorância da minha mestra?! Mas... Enquanto rolávamos no chão ensanguentado entre socos, tapas e pontapés percebi o quanto eles são parecidos. E passei a gostar dele também. Tudo que me lembra minha mestra me soa agradável.

 Você pode achar que sou ingênuo, mas não guardo rancor. Não acho interessante dedicar mais tempo a quem me feriu odiando ele. Você deve estar sentindo falta do meu sotaque francês não é? Mas estou cansado. Veneza me cansa. Não gosto dessa cidade. Afinal... Tudo aconteceu aqui... E esse som que morre me perturba ainda mais. É como se tudo que vive nessa cidade tivesse algum mistério. Os humanos podem achar isso divertido, mas eu odeio. Me deixa cansado. Vejo mais que todos eles, lembro mais que todos eles, sei mais que todos eles. Tudo isso é ruim. Não poder esquecer traz uma tristeza que me faz sentir medo e querer... Vingança.

E tudo isso dói. Saí de trás da minha mestra e fui para o lado de Marchello. Primeiro ele ficou surpreso, depois pareceu satisfeito. Colocou a mão em minha cabeça e disse a ela:

-Parece que ele quer ficar. São dois contra um agora. O que me diz?
-Se ele quer ficar não posso fazer nada. Eu quero ir para o hotel. Mas não vou deixar você sozinho com meu gatinho de estimação.

Ele deu uma risada macabra de satisfação.
- Minha bailarina já cuidou dos preparativos em seus aposentos e eles são por aqui, sigam-me.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Chapter XXII Tinta & Fogo II

Perguntas como: "Quem sou eu? De onde Venho? O que devo fazer?" são coisas que humanos e não-humanos se perguntam frequentemente. 
A única certeza que não-humanos realmente tem... É que não temos para onde ir.




Estava na hora de levá-la a sério... Ou pelo menos foi o que tentei fazer... A verdade... (lá vou eu tentando falar sobre verdade. Como se isso fosse possível pra alguém como eu. Os gregos costumavam dizer, que para cada situação existiam 7 verdades diferentes... Os cientistas trabalham com mais de 20 verdades até chegarem a um consenso... Então...) Como posso raciocinar com os olhos dela lendo minha alma?! Fiquei abalado quando nos encontramos pela primeira vez naquele laboratório, o tempo passou e não consegui esquecê-la... Nos reencontramos naquela mansão e tudo que consegui fazer foi fugir dela... Deixá-la para trás, de novo!  E agora... Que ela veio até mim... Não tenho como fugir. Você deve estar me achando ridículo... Ela é sempre tão legal não é mesmo? Tão fria e decidida. Sempre sabe o que fazer, sempre tem uma resposta... Eu não consigo ser assim. Eu... Sinto muita dor. 


- Meu nome é Marchello. Por um obséquio... Me deixe levantar ou me abrace. Estou com muito frio.


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Me levantei rapidamente e o puxei para que ficasse de pé. A pele dele estava toda arrepiada... E não estava nem mesmo nevando... Para mim ele que já era estranho... Agora era um ser de outro mundo. Como poderia?! Ao mesmo tempo que parecemos iguais somos tão diferentes?! 
Os olhos dele tem a mesma cor dos meus... Mas eles tem aquela coisa que os humanos tem... Aquele brilho doloroso e amargurado... Os olhos dele tem sentimentos e não um ou outro parecem a mistura de todos juntos encravejados em dois rubis cintilantes. 


Ele abraçou o próprio corpo na tentativa se se aquecer, e eu fiquei observando... Até que tive uma ideia que me pareceu perfeita:


-Ricartto. - Ele logo surgiu entre o portal e as cortinas chamuscadas. 
-Oui mon cher?
-Aqueça-o. 
-Se este é seu desejo... Ricartto desabotoou a própria camisa e a colocou sobre os ombros de Marchello, e o abraçou logo em seguida. Nenhum dos dois se moveu. Olhei para ambos e tudo parecia tão... Fofo! As orelhinhas de Ricartto estavam inclinadas e a cauda negra ficava ondulando de um lado para o outro. E o vento frio e empoeirado agitava os longos cabelos dos  dois fazendo uma mescla de cores entre os fios negros ondulados como seda negra de Marchello e as mechas Azuladas de um azul muito escuro e cintilante de Ricartto... 


- O que você fez aqui? 
- Ei! E por quê eu tenho que ser o culpado?! 
- Tô errada? 
- Tecnicamente... Não. 
- Quanto tempo vão ficar se abraçando desse jeito? 


Marchello praticamente despertou, como quem leva um susto ele empurra Ricartto que como todo gato... Cai de pé. 


- Fala sério, que saco! Você destruiu minha capa favorita! 
- Dizem que esse lugar é assombrado tem alguma relação com o resto? 


Marchello tomou um tom sério, como quem fala de má vontade: - Meu amado Teatro ganhou fama de assombrado. Fanáticos cercaram e tentaram atear fogo... Acontece que os malditos fizeram isso bem na hora de um espetáculo! Fiquei furioso! A platéia estava lotada e não havia como salvar todos, precisei escolher entre meus quadros e os espectadores. Então matei todos e usei o sangue deles para apagar o fogo. Salvei meu teatro e ponto final! 


- É muito esforço para um simples Teatro... Você mora aqui não é? 
-Simples?! Simples?! Como ousa chamar meu glorioso Valsa Dantesca de Simples?! Ele é a maior realização artística desta cidade! E talvez do planeta! Os maiores espetáculos vem ao meu palco implorando uma oportunidade de bailar sobre ele! Tudo que existe, tudo que acontece dentro do Valsa Dantesca é arte. Até mesmo se o inferno subir a terra por trás das minhas cortinas... Serei aplaudido! 


Ele parecia nervoso e ensandecido... Tive certeza que ele não regulava bem... Não mesmo...! Mas terei muito tempo para entender a loucura dele... ou... Dar um fim à ela.
E nesse momento ouvi uma coisa que me chamou atenção... Ouvi um som que soou tão familiar que pude sentir o perfume de flores brancas... Som de um mestre em violino. 









quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Chapter XXI Tinta & Fogo I

Se me lembro bem, eu estava dormindo nos bastidores do andar de cima debruçado sobre o piano ou o que sobrou dele... Não acho elegante dormir esparramado em qualquer lugar usando minha capa como cobertor, mas não é algo que eu possa evitar. Sempre caio exausto após um massacre...

Essas eram minhas últimas certezas antes de acordar, depois de levar um chute nas costelas e sentir ela prendendo meus pulsos contra o chão acima da minha cabeça; pode me chamar de pervertido se quiser, mas fiquei excitado com a situação... Pude sentir cada detalhe do impacto de suas nádegas e coxas pressionando meus quadris com o peso do corpo dela... Um corpo tão leve e pequeno... Se não fosse por perceber a lâmina afiada da espada que ela pressionava contra minha garganta eu poderia realmente apreciar o momento... Opa... que falta de educação a minha... Você deve estar se perguntando: "Quem diabos é você?" Acho que sou isso mesmo. Um diabo. 

Hahahaha! Me desculpe, não resisti... Gosto da sua expressão quando digo isso. Enfim, apesar de tudo você sente como se reconhecesse minha voz não é verdade? 
Vou ser bem honesto (claro, se possível o que duvido... Nunca vi um diabo honesto... Você já?) eu sou um artista. Um pintor de quadros que gosta de tocar piano nas horas vagas... Acho que o que incomoda as pessoas de verdade é que minha cor favorita é vermelho.
Porém não um vermelho qualquer, isso não! Minha tinta favorita circula por todo corpo humano pulsante, vermelha viva e ardente. Sou um apaixonado pela beleza... Acho que tudo pode ficar mais belo com uma decoração adequada, e estou sempre disposto a criar esta decoração... Só desconfio que os humanos não aprovarão muito minha escolha de materiais... -Desculpe... Acabei lhe dando um sorriso cínico não é mesmo? Mas sugiro que se acostume... Sou muito cínico... Eu já me acostumei com isso e todos os meus defeitos, quando me canso deles só preciso cobrí-los com uma bela pintura vermelha em algum lugar... Acho que o escritório daquele agente estúpido é um bom lugar para começar... Mas isso pode esperar. Onde eu estava? Ah claro, quem eu sou... Acho que não posso mais conversar assim tão tranquilamente se ela não sair de cima de mim... Não imagino o que posso fazer... 

-O que significa isso? Vai me violentar? Estou disposto a não resistir, se for você a estupradora.  - Disse eu com o rosto ainda encoberto por mechas do meu cabelo e o capuz que recaía sobre meu rosto. Ela não mudou a expressão... Que raro! 

Demorei dois minutos até entender o que significava aquela capa rasgada ao meu lado enquanto o vento empoeirado e frio agitava e retirava as mechas de cabelo da minha face... Foi como num piscar de olhos! Ela movimentou a espada tão rápido... Em um instante eu estava coberto, e no instante seguinte estava com o rosto à mostra e o peito nu fitando-a sem entender como ela havia afastado a lâmina, me despido da capa e voltado à pressionar meu pescoço com a mesma espada. 

- Você me deixou uma carta, dizendo para que eu viesse aqui saber o seu nome.

Foi involuntário... Mas eu sorri, surpreso. 

- Vou levantar agora, senhorita... - E realmente me levantei alto o bastante para me sentar no chão... E ela não saiu do meu colo. Ficamos tão próximos, que se não estivesse mascarada eu poderia agarrara-la à força para beijá-la... - Pensei. E só senti novamente o baque do meu corpo contra o chão enquanto ela pressionava agora com uma força assombrosa meu corpo  na mesma posição anterior. 

Quando voltei à mim me percebi de olhos arregalados fitando-a e me debatendo como um pássaro encurralado entre as garras de uma fera enquanto ela mantinha a lâmina em meu pescoço e me segurava pelos pulsos. Minhas pernas se movimentavam com força contra o chão como se eu desejasse que ele me engolisse... Por quê?! Porquê não consigo sair?! - Fechei os olhos desesperado como jamais estive diante de ninguém, e ouvi o barulho da lâmina caindo ao lado do meu ombro, senti um toque gelado em meu rosto... Abri os olhos e ela chorava, enquanto suas lágrimas caíam em minha face e escorriam... Seus olhos agora eram como os meus... Tão cheios de dor e amargura que nesse momento esqueci de mim... Pode imaginar isso?! Eu! Eu esqueci de mim! Logo eu fazendo uma coisa estúpida dessas... E ouvi a voz dela tão infantil, tão meiga: - Está chovendo nos meus olhos por sua culpa... Quem é você?  

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Chapter XX O convite

Passou-se dois anos até que eu me lembrei que o tal assassino da rosa. Havia deixado um envelope sobre a mesa. 
Ricartto havia voltado do supermercado, aliás, neste últimos anos Ricartto tem andado no meio dos humanos como se fosse um deles, basta por um chapéu na cabeça e pronto. Lá vai ele desfilar no meio dos humanos... Impossível que Ricartto não chame atenção; pois ele é infinitamente mais bonito que qualquer mortal que já se  viu andar sobre a terra... E cada vez que penso nisso crescem ainda mais minhas idéias de que Ricartto não era um simples humano quando o encontrei...
Não, mas isso é certeza. Afinal, que humano comum tem o charme e as orelhas de um gato?

-Não vai abrir cherry? - Disse ele me fitando com o envelope entre os dedos.
-O quê? Isto? Quer que eu abra? Pode ser uma carta-bomba.

Ele riu. Eu fiquei observando-o rir sem entender o que eu havia feito para que ele risse. - Será que eu disse algo engraçado? - Pensei. Mas nem mesmo essa dúvida me impediu de destruir o envelope e tirar uma carta com dois ingressos de dentro dele. 
A carta dizia: 

Veneza, 02 de Fevereiro de 2010. 

* Saudações. 

Eu sempre soube que um dia nos encontraríamos. Não me conhece mas eu me lembro de você. Te vi no laboratório quando eu passei "redecorando" as paredes com o sangue dos funcionários. Gostaria de agradecer afinal, se recebeu esta carta, fez por merecê-lo. Tenho prazer em convidar você e a quem mais quiser levar para visitar meu teatro. Basta vir a Veneza e procurar por "Valsa Dantesca".   


Ps: Venha para saber o meu nome.*

 O fato é que eu estava entediada, e qualquer desculpa serviria de distração, ainda que para isso precisasse viajar à toa... Eu iria. 

-Vamos para Veneza. Providencie um táxi aéreo e óculos escuros. 
-Oui mon cher! 

E quando finalmente estávamos em pleno voo... Para nossa sorte o piloto era do tipo que faz seu trabalho em silêncio e permanece assim após ele, sem sequer observar os passageiros, ele parecia muito mais preocupado em voar do que conosco e nossos óculos escuros, com a pele pálida, e roupas escuras, isso sem contar que eu não tiro minha máscara... Nunca!
E assim finalmente chegamos no aeroporto.

- Mon cher... Abaixe essa máscara está deixando os policiais inquietos... 
- Não. Compre máscaras de Veneza para nós. 

Me sentei nas poltronas do saguão e esperei que Ricartto retornasse. E finalmente ele veio. 

- O que faremos com elas? 

Eu não respondi coloquei uma delas sobre a minha própria e chamei um táxi. Ricartto me seguiu com a dele em mãos. 

- Para onde donna? - Perguntou o velhinho taxista.  
- Valsa Dantesca. 

O velhinho arregalou os olhos e disse: - Tem certeza? Há quem diga que o lugar é assombrado...

- Somos artistas. 

O velhinho sorriu e começou a guardar nossa bagagem no porta-malas. Como descrever a sensação de andar pelas ruas de Veneza? Não sei fazê-lo. E por mais que para mim todas as cidades sejam quase iguais: Formigueiros de humanos. 
Veneza tem algo que faz com que você deseje descer do carro e andar pelas ruas descalço. Correr até uma das pontes ficar lá admirando a cidade até que caia dentro das águas exausto. 
Certamente fazer isso não era algo que eu cogitasse naquele momento, então me contentei em me entreter observando as reações de Ricartto que olhava a cidade com certo desdém de quem não tem boas lembranças do lugar... Preciso lembrar de descobrir sobre isso algum dia... 

E assim chegamos. Diante da gloriosa fachada italiana, dotada de um requinte impressionante, haviam guardas antes da faixa amarela de "Não ultrapasse". O lugar estava um caos, algo como um massacre, um incêndio ou ainda ambos, pareciam ter acontecido ali...






sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Chapter XIX

Fiquei parada por alguns minutos olhando os dois estirados no chão... 
Na verdade eu gostaria muito de pular na garganta de ambos e sacudir até que voltassem à consciência para que aí sim, eu pudesse lhes bater e descontar minha raiva! Mas não havia tempo... A regra número dois era desaparecer antes da polícia chegar e a número um... É nunca deixar testemunhas...
Era o que me faltava! Ter que roubar um carro para carregar dois pesos mortos. Agora eu tinha outra decisão difícil à tomar... Era óbvio que eu precisava voltar ao meu esconderijo, mas poderia levar aquele "companheiro de profissão" para minha casa? 


Se podia ou não a verdade é que eu o fiz. Primeiro arrumei uma cama e joguei o tal intruso e depois fui mimar meu gatinho em seu quarto. Ele acordou manhoso como uma criança de 5 anos e aninhou-se no meu colo e de  novo fiquei ofuscada por aquelas orelhinhas de gato ... Macias *-* muito macias... A verdade é que perdi a noção do tempo novamente e quem me despertou foi justamente Ricartto que agora se afastava de mim para se espreguiçar e se recompor. 

- Mon cher... Trouxe aquele homem para cá? 
-Trouxe. E daí? 
-Melhor eu verificar a saúde do nosso hospede. - Disse ele num sorriso que deixaria iludiria até um anjo, mas não me convenceu. E eu o segui.       

Foi com ainda mais falta de crença no que acontecia que presenciei Ricartto cuidar do assassino como se fosse um médico atencioso. Eu me aproximei e então uma coisa me hipnotizou: O cabelo dele! Macio liso como fios de seda negra espalhados sobre o peito nu que arfava com a respiração lenta, mórbida. 
Não, não! Não me façam perguntas. Não sei explicar porque aquela cena me chamou tanta atenção, talvez por ser algo totalmente novo... Eu jamais havia visto alguém tão interessante e ao mesmo tempo tão irritante. 

O simples fato de olhar para ele me incomodava. Queria que ele abrisse os olhos e falasse quem era, de onde vinha e principalmente me explicasse porque... Tinha nos olhos a cor dos meus. 
Eu não estava disposta a esperar nada avancei sobre ele e arranquei o capuz de sua cabeça. Ele abriu os olhos quase que subitamente e agarrou-se ao meu braço que segurava sua capa. 

-Devolva. - Disse ele deixando as longas madeixas negras lhe encobrirem quase toda face. 
-Quem é você? - Perguntei sem fazer nenhum caso de sua ameaça.  
-Sou igualzinho você, com a diferença de que não roubo capas! 

Por algum motivo estranho me senti ofendida, e por pouco não enfiei-lhe a capa garganta abaixo. Joguei-a no rosto dele com tanta força que se ele não a tivesse segurado poderia mesmo se machucar mais ainda. 
Agradeço a hospitalidade. - Levantou-se deixou um envelope sobre a mesa e antes que Ricartto ou eu pudéssemos impedir desapareceu num redemoinho de poucas pétalas. Ricartto foi o mais ofendido, enquanto ele rogava pragas em francês, italiano e sei lá qual idioma logo fiquei entediada: 
- Tá com fome? - Perguntei como se nada tivesse acontecido. 

E não era mentira, para mim nada de importante havia acontecido. Vê-lo sumir foi como perder todo meu interesse nele, e agora sua figura misteriosa não me atrairia mais atenção que uma das lâmpadas amareladas nos postes de luz. 
Só me pergunto se essa habilidade em me interessar e desinteressar por detalhes é algo humano... Se for, deve ser de um humano louco. Talvez um pedaço daqueles que eu já comi.