E depois daquele momento único, as noites nunca mais seriam as mesmas...
E o tempo passou novamente a ser contado em dias, horas minutos e segundos. A pontualidade assustadora com a qual ele me despertava todas as manhãs tocando gentilmente minha mão todas as manhãs sussurrando: "Bela manhã 'mon cher'. Os pássaros estão a cantar lá fora."
- E que culpa eu tenho disso?!
-Quel est votre désir mon cher? - Ele repetia incansavelmente sorrindo sempre.
E nesse momento meu estômago me lembrou que havia algum tempo que eu não me alimentava como devia graças a presença de Ricartto. É claro que eu não faria isso por um humano ou um motivo qualquer... Mas já disse e repito: A minha vida por um gato.
- Je crois savoir. - Ele simplesmente saiu.
Ele voltou em questão de minutos com uma bandeja muito bem ornamentada e realmente bonita com um lanche delicado, bolinhos de carne bem temperados, acompanhados de chá de ervas campestres. Eu simplesmente fiquei olhando para aquilo por alguns minutos como se ele tivesse me colocado uma bomba ou servido veneno para comer.
-Não está ao seu agrado mon cher?
-Não vou tocar isso.
-Me permita.
Ele escolheu um dos bolinhos segurou entre os lábios e me ofereceu. Você aceitaria?
Curiosidade. Essa palavra explica todas as minhas ações. O novo e inesperado, o misterioso atrai.
E o inesperado aconteceu: - Eu senti o sabor. O sabor da comida humana que não me saciara desde o dia da minha morte, e que tão pouco tivera sabor. Eu reconheceria este toque espesso e suave em até mil anos longe. Tenho absoluta certeza de que seja o que for nesta receita, há sangue humano misturado entre as ervas indianas, entre o cravo e a pimenta do reino. Enquanto ele me servia um a um cuidadoso, e eu os devorava. Prazer tal que não pudera imaginar conseguir algum dia... Me foi oferecido entre os lábios de um humilde servo.
Ele pegou um guardanapo de algodão muito branco e bordado nas laterais, limpou minha boca.
-Com licença 'mon cher'.
Eu apenas comecei a me perguntar como ele conseguia fazer tudo tão habilmente em questão de minutos, e coisas que eu nem sabia que possuía ganhavam existência e requinte. Mistérios felinos... Ricartto... Certamente é fonte da minha curiosidade neste momento...
E enquanto isso... Uma lista gigantesca de pedidos, requisitações se acumulava nos meus contatos... Era o dever enviando seu chamado noturno... Exigindo que eu ostentasse o manto que me fora concedido pela morte, e o manchasse de vermelho. Entre lâminas afiadas que brilham como os cometas, segundos antes de sua explosão ceifando vidas sem piedade...
"Algum humano velhaco disse: Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje."
Eu realmente devia ter ido. Mas não fui. E assim, uma bela tarde Ricartto como um humilde e prestativo servo, se dispôs a organizar e separar o útil do inútil. E assim... Ele chegou aquela lista... Meu convite para o baile dos imortais... Meu trabalho... Minha amada maneira de existir... Minha festa no inferno... Agora eu tinha uma decisão à frente... O que farei com este humilde servo?
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