quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Chapter XXI Tinta & Fogo I

Se me lembro bem, eu estava dormindo nos bastidores do andar de cima debruçado sobre o piano ou o que sobrou dele... Não acho elegante dormir esparramado em qualquer lugar usando minha capa como cobertor, mas não é algo que eu possa evitar. Sempre caio exausto após um massacre...

Essas eram minhas últimas certezas antes de acordar, depois de levar um chute nas costelas e sentir ela prendendo meus pulsos contra o chão acima da minha cabeça; pode me chamar de pervertido se quiser, mas fiquei excitado com a situação... Pude sentir cada detalhe do impacto de suas nádegas e coxas pressionando meus quadris com o peso do corpo dela... Um corpo tão leve e pequeno... Se não fosse por perceber a lâmina afiada da espada que ela pressionava contra minha garganta eu poderia realmente apreciar o momento... Opa... que falta de educação a minha... Você deve estar se perguntando: "Quem diabos é você?" Acho que sou isso mesmo. Um diabo. 

Hahahaha! Me desculpe, não resisti... Gosto da sua expressão quando digo isso. Enfim, apesar de tudo você sente como se reconhecesse minha voz não é verdade? 
Vou ser bem honesto (claro, se possível o que duvido... Nunca vi um diabo honesto... Você já?) eu sou um artista. Um pintor de quadros que gosta de tocar piano nas horas vagas... Acho que o que incomoda as pessoas de verdade é que minha cor favorita é vermelho.
Porém não um vermelho qualquer, isso não! Minha tinta favorita circula por todo corpo humano pulsante, vermelha viva e ardente. Sou um apaixonado pela beleza... Acho que tudo pode ficar mais belo com uma decoração adequada, e estou sempre disposto a criar esta decoração... Só desconfio que os humanos não aprovarão muito minha escolha de materiais... -Desculpe... Acabei lhe dando um sorriso cínico não é mesmo? Mas sugiro que se acostume... Sou muito cínico... Eu já me acostumei com isso e todos os meus defeitos, quando me canso deles só preciso cobrí-los com uma bela pintura vermelha em algum lugar... Acho que o escritório daquele agente estúpido é um bom lugar para começar... Mas isso pode esperar. Onde eu estava? Ah claro, quem eu sou... Acho que não posso mais conversar assim tão tranquilamente se ela não sair de cima de mim... Não imagino o que posso fazer... 

-O que significa isso? Vai me violentar? Estou disposto a não resistir, se for você a estupradora.  - Disse eu com o rosto ainda encoberto por mechas do meu cabelo e o capuz que recaía sobre meu rosto. Ela não mudou a expressão... Que raro! 

Demorei dois minutos até entender o que significava aquela capa rasgada ao meu lado enquanto o vento empoeirado e frio agitava e retirava as mechas de cabelo da minha face... Foi como num piscar de olhos! Ela movimentou a espada tão rápido... Em um instante eu estava coberto, e no instante seguinte estava com o rosto à mostra e o peito nu fitando-a sem entender como ela havia afastado a lâmina, me despido da capa e voltado à pressionar meu pescoço com a mesma espada. 

- Você me deixou uma carta, dizendo para que eu viesse aqui saber o seu nome.

Foi involuntário... Mas eu sorri, surpreso. 

- Vou levantar agora, senhorita... - E realmente me levantei alto o bastante para me sentar no chão... E ela não saiu do meu colo. Ficamos tão próximos, que se não estivesse mascarada eu poderia agarrara-la à força para beijá-la... - Pensei. E só senti novamente o baque do meu corpo contra o chão enquanto ela pressionava agora com uma força assombrosa meu corpo  na mesma posição anterior. 

Quando voltei à mim me percebi de olhos arregalados fitando-a e me debatendo como um pássaro encurralado entre as garras de uma fera enquanto ela mantinha a lâmina em meu pescoço e me segurava pelos pulsos. Minhas pernas se movimentavam com força contra o chão como se eu desejasse que ele me engolisse... Por quê?! Porquê não consigo sair?! - Fechei os olhos desesperado como jamais estive diante de ninguém, e ouvi o barulho da lâmina caindo ao lado do meu ombro, senti um toque gelado em meu rosto... Abri os olhos e ela chorava, enquanto suas lágrimas caíam em minha face e escorriam... Seus olhos agora eram como os meus... Tão cheios de dor e amargura que nesse momento esqueci de mim... Pode imaginar isso?! Eu! Eu esqueci de mim! Logo eu fazendo uma coisa estúpida dessas... E ouvi a voz dela tão infantil, tão meiga: - Está chovendo nos meus olhos por sua culpa... Quem é você?  

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