sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Chapter XXIII O som que morre

Desejei saber o autor do som... Embora por alguma razão estranha tivesse a certeza de que seria ele... Meus pensamentos foram cortados por um ataque de fúria de Marchello: 

- Malditodesgraçadofilhodeumacadelasemmãe! A culpa é sua! - Marchello correu como uma criança corre atrás de quem rouba seus doces, e eu o segui andando calmamente. 

Quando cheguei até o palco principal ele estava discutindo com... N-Narciso! Não entendo... Pensei que Marchello ia matá-lo, mas... Está gesticulando e gritando por vez ou outra sacode Narciso pelos ombros...

-Maldição! Quer morrer?! Que estado é este?! O meu melhor músico parece um mendigo! Se parasse de tocar dia e noite não teríamos fama de assombrados! 
- Você disse que eu podia tocar quando quisesse. 
-Eu sei! Mas... Faça como quiser!
- Obrigado. 

Ele se reposicionou apoiando novamente seu velho violino e tocou... Tocou Paganini! Logo aquela sonata... Caprice nº 05 In minor. Minha sonata favorita... Ele esteve de costas para mim o tempo todo, e devia continuar assim. Decidi me afastar aos poucos em silêncio fui andando meus passos praticamente não tinham nenhum som... Fui me afastando e parei quando ouvi um acorde agudo, desafinado e desesperado como... É a alma que insiste em se apegar ao corpo, então a morte vem e estabelece a escuridão no olhar que outrora reluzia.
Voltei o rosto imediatamente, mas não havia nada lá. Narciso havia desaparecido no meio daquele acorde; e agora não restava nada. Nada além do silêncio perturbador após um som que morre antes de terminar sua sentença.

-Ricartto. –chamei. Ele demorou a  responder, e quando veio tinha o olhar perdido. Tão distante que pareciam vislumbrar algo maravilhosamente assustador.

-Sim querida?

Eu realmente odeio o sotaque francês que ele impõe misturado ao nosso idioma, mas... É como se Ricartto não fosse Ricartto sem o seu charmoso, porém detestado sotaque.

-Você... Quer leite?
Ele acenou positivamente com a cabeça e sorriu em seguida.

                                              -----------#--------------

“Uma tigela de leite humn... Minha mestra realmente acredita que uma tigela de leite pode resolver qualquer coisa... Se ela pudesse ler meus pensamentos... Saberia que não. Mas... Veria o quanto seu cuidado me alivia a dor...”

Nós dois estávamos andando em direção à saída quando nos deparamos com Marchello plantado no meio do corredor como uma coluna angular:

- Onde pensam que vão?
- Não pensamos, nós vamos para um hotel. – Respondeu ela.
- Não vão mesmo! Faço questão que fiquem sob meus cuidados. Veneza é bella, mas não é um lugar gentil para estrangeiros perdidos e perigosos.
- Não ligo.

 Ela respondia secamente olhando para fora na janela com tanto descaso da presença dele que Marchello rangia os dentes de puro despeito. Essa é uma das coisas que amo em minha mestra... A personalidade dela é tão... Diferente! E muda totalmente quando vê algo em que atrai seu interesse, e quando se desinteressa é a mesma coisa. É emocionante ver como ela oscila rápido entre o cruel e o inocente, o fofo e o grosseiro. De toda forma era divertido ver os dois se alfinetando. No começo odiei Marchello. Odiei a ponto de atacá-lo para matar. Como ele ousava brincar com a ignorância da minha mestra?! Mas... Enquanto rolávamos no chão ensanguentado entre socos, tapas e pontapés percebi o quanto eles são parecidos. E passei a gostar dele também. Tudo que me lembra minha mestra me soa agradável.

 Você pode achar que sou ingênuo, mas não guardo rancor. Não acho interessante dedicar mais tempo a quem me feriu odiando ele. Você deve estar sentindo falta do meu sotaque francês não é? Mas estou cansado. Veneza me cansa. Não gosto dessa cidade. Afinal... Tudo aconteceu aqui... E esse som que morre me perturba ainda mais. É como se tudo que vive nessa cidade tivesse algum mistério. Os humanos podem achar isso divertido, mas eu odeio. Me deixa cansado. Vejo mais que todos eles, lembro mais que todos eles, sei mais que todos eles. Tudo isso é ruim. Não poder esquecer traz uma tristeza que me faz sentir medo e querer... Vingança.

E tudo isso dói. Saí de trás da minha mestra e fui para o lado de Marchello. Primeiro ele ficou surpreso, depois pareceu satisfeito. Colocou a mão em minha cabeça e disse a ela:

-Parece que ele quer ficar. São dois contra um agora. O que me diz?
-Se ele quer ficar não posso fazer nada. Eu quero ir para o hotel. Mas não vou deixar você sozinho com meu gatinho de estimação.

Ele deu uma risada macabra de satisfação.
- Minha bailarina já cuidou dos preparativos em seus aposentos e eles são por aqui, sigam-me.

Nenhum comentário:

Postar um comentário