Desse dia em diante, o som em meu refúgio mudou de timbre, mas não para o tipo barulhento e incômodo de insatisfação que ruge nas cidades humanas. Era silencioso, elegante, de vez em quando ouvia-se um som agradável ecoar... Era novamente o som produzido por aquele instrumento que ele viera segurando consigo durante todo percurso sem reclamar uma só vez, não dissera qualquer palavra. Realmente era um gato.
Ah sim! reconheço esta melodia... É um tango. Era a primeira vez que eu ouvia um Tango sendo tocado em gaita harmônica. Parecia ser sua composição favorita. Realmente ele ficava onde eu havia deixado e pouco se movia exceto quando estava tocando, e quase sempre estava tocando. Silencioso, não ousava me encarar.
Realmente os gatos são criaturas cuja graça e charme é concedida por natureza; sempre considerei essa aparente e temporária timidez felina como alguma estratégia maravilhosa, certa cautela, da astúcia objetiva e pura que só se encontra em certos felinos e serpentes.
De manhã eu lhe servia um pires de leite. ao meio dia oferecia-lhe de tudo, e nada o aprazia. Na verdade cansei-me de sair e encontrar o prato intocado. Até que um dia lhe ofereci sardinha crua, e pela primeira vez ele se levantou do seu sofá e veio em minha direção.
Após isso ele lambeu os dedos e não saiu do meu lado. Li em um livro de que para conquistar um felino você só precisa de paciência, um pires de leite e um prato de sardinha... Bem, aqui estamos. Ele realmente precisava de um banho, mas todo mundo sabe... Que os gatos não gostam de água.
Eu não me importaria de sair arranhada, mas simplesmente não gostaria de fazer essa crueldade com ele. E decidi que ele ficaria como quisesse.
Navegando na internet, enquanto lembrava da aquelas orelhas tão macias na cabeça dele só conseguia pensar em uma coisa: "Paf Paf" -apertar-. E vi algo que ele merecia. Ao cair da noite, Fui comprar. Realmente não sou muito sociável, mas definitivamente eu queria dar aquilo a ele. Bem, acho que se eu sorrisse um pouco ou tivesse os olhos mais rasos, ao invés desse olhar pouco expressivo, mas parecia que a morte havia me concedido seu manto negro; é realmente uma honra não é mesmo?
E foi entre olhares reprovadores, suspeitos que entrei na loja desafiando o vendedor a me ofender ou jogar alguma coisa em mim SE tivesse coragem... Ele não o fez foi justamente o único elemento que faltou, ah sim, isso e o detalhe de que uma das atendentes não tirava os fones de ouvido, ruiva com pouca questão do que o colega de trabalho falava ou não. Era metaleira. Bem, se existem pessoas que tem meu respeito são aquelas que tem a decência de usar fones de ouvido, e não mudam de comportamento só porque tem outras pessoas torcendo o nariz. Ela terminou de guardar os cd's na sua sessão e deu uma "bundada" no colega que pensava se me atenderia ou não, e ele caiu sentado. Ela era mais forte do que ele, não fazia juiz ao tipo físico esteticista do mundo humano no século 21... Ela era gordinha, me lembrava bastante um rouxinol que vivia na janela do meu refúgio durante a manhã cantando, redondinha e baixinha... Fiquei mais uma vez surpresa, como poderia existir uma humana tão bonita quanto meu querido rouxinol?
Me olhou bem nos olhos e disse: Boa noite moça vai levar o que?
- Quero a coleirinha em forma de gravata.
Ela não fez perguntas foi lá e tirou da vitrine. O rapaz parecia atordoado, falando baixo para ela que era muito caro, que precisava ser reservado com antecedência pois era uma peça muito fina... Bem, se não fosse essa minha audição aguçada... Realmente eu não teria ouvido nada. Ela olhou pra ele e disse: - Ah vá te lascar! A moça quer comprar, ninguém vendeu esse troço em mais de 6 meses e você fica aí com o C* dando choque. Ela voltou sorrindo.
-Embalagem pra presente?
-Pode ser.
Ela embalou eu tirei um maço de notas de 100 do bolso e coloquei exatos 2 mil e 100 reais sobre o balcão.
-Moça é só 2 mil.
-Os 100 são pra você. Acho que vocês chamam de gorjeta quando se é bem atendido.
Virei as costas e saí andando. Ela veio atrás de mim querendo dizer: Não posso aceitar, mas a despistei entre a escada e uma loja de roupas.
Ela voltou pra loja resmungando: "Porra, nem pra aparecerem clientes assim quando eu trabalhava no restaurante ¬¬' Aliás, Quando é que meu patrão vai me deixar voltar pra lá? Que coisa chata ajudar o irmão mais novo ¬¬' pelo menos posso ouvir meu rock em paz." - Acabei ouvindo tudo isso quando já estava a quilômetros de distância do shopping... Algum tempo depois finalmente cheguei ao meu refúgio. Talvez eu devesse ouvir menos...
-Psiu! Gatinho... Vem cá!
Ele estava deitado no sofá olhou pra mim e sentou. Eu fui até ele e mostrei o presente. Ele não esboçou reação nenhuma... Até eu colocá-lo no pescoço dele. Foi como se uma injeção de vida tivesse sido injetada direto no cérebro dele. E descobri que ele sabia falar não só aquele idioma, mas o meu também.
-Você me quer? Vai me deixar atender todos os seus desejos?
-Orelhas... *-* ...Paf paf... Estendi as mãos para tocá-las quase que instintivamente.
Ele abaixou a cabeça para que eu as alcançasse. Eu as peguei. Eram mesmo tão macias quanto pareciam e eram reais!?
Ele pegou minhas mãos e acariciou o próprio rosto com elas. Por fim disse: - Preciso de um banho. Eu o acompanhei até o banheiro e ele disse: Eu cuidarei disto desta vez "Mon cher". Em 60 segundos ele estava nu. Rápido... Muito rápido. Eu virei as costas e saí quase que roboticamente... Que coisa assustadora era aquela? Os livros não disseram nada sobre isso. Espere, acho que nenhum livro explicaria aquelas orelhas, ou mesmo essa situação; exceto uma imaginação muito fértil de quem tem o estômago muito forte, ou algum livro de ficção científica...
E foi exatamente assim que eu caí no sono. Não por cansaço, mas por tédio. Que banho lento!
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