Nos encontramos ao cair da tarde, sob o sol avermelhado e ardente que costuma desaparecer entre as montanhas...
Eu havia o convocado a me fazer companhia à beira de um penhasco. Havia uma mesa redonda pronta para um eventual chá da tarde e no centro havia uma única taça de cristal vazia.
E ele veio. Novamente com o mesmo traje branco sob o colete preto, o olhar misterioso, as orelhas... Preciso parar de divagar sempre que penso nessas lindas orelhinhas de gato *-*. Vinha trazendo a tiracolo um livro bem pequeno e um óculos discreto no bolso. Qualquer um não teria notado... Mas eu vi. Analisá-lo diariamente já havia se tornado uma rotina.
Ao chegar ele não deixou de cumprir nenhuma das cerimônias, se encurvou e me saudou: Mon cher.
-Não sou sua querida. Sou um cadáver que anda, fala e devora humanos, que ainda não perdeu todos os hábitos humanos. Uma assassina, um monstro. Posso devorá-lo agora mesmo.
-Mon cher, desde a noite em me tocaste cada célula do meu corpo lhe pertence. Se servir de alimento para vós for o seu desejo; terei prazer em cumpri-lo.
-Meu desejo é que você faça uma escolha que eu não quero fazer por você.
Ele pareceu surpreso. Eu puxei uma das cadeiras e disse:
-Sente-se.
Ele obedeceu prontamente. Fui me sentar, ele fez menção de levantar-se e puxar a cadeira cavalheirísticamente e ordenei: -Não se mova.
Ele permaneceu obediente.
-Coma. Lhe concederei uma oportunidade que não tive e nem costumo dar. Eu mesma preparei. Espero sinceramente não ter errado nas medidas, já que é bem difícil cozinhar apoiando-se apenas no olfato e em um livro.
Ele provou, e sorriu.
-Está divino. Errou a consistência dos bolinhos de grãos-de-bico - disse ele comendo o ultimo deles. - Mas qualquer coisa preparada por suas delicadas mãos, certamente será maravilhosa mon cher.
-Ainda não sei o que você é, mas tenho certeza de que humano não é. Nenhum humano em sã consciência comeria algo preparado por um cadáver. Ou sequer viria aqui e permaneceria tão calmo.
-Que acompanhamento devo servir quando fores me devorar mon cher? Deseja algo especial? Como devo decorar o prato? Prefere uma grande bandeja de prata ou me tomará vivo e agonizante entre seus braços? Imagino que cetim, não agrade o seu paladar... Nesse caso...
Ele retirou o colete e começou a abrir a camisa um botão de cada vez.
Peguei a taça do centro da mesa, bati a unha contra a borda e a quebrei. Com um dos cacos dilacerei meu pulso e enchi a taça com meu sangue. Ele já não era tão vermelho, possuía um tom de vinho que desafiava os tons mais escuros, enquanto a taça refletia em sua borda estilhaçada os últimos raios solares sendo engolidos pelas sombras... E eu a ofereci a Ricartto.
- Vê esta taça? Se a provar será a ultima. Nunca mais tornará a sentir sabor algum que não o de sangue e carne humana. Sua fome será macabra, e sua existência será regida por uma valsa demoníaca.
-Se eu a provar... Poderei servi-la por toda eternidade?
-Se a provar. Não terá outra escolha.
Ele se aproximou e colocou suas mãos sobre as minhas segurando a taça entre elas, e aproximando os lábios a entornou para si, e quando já não havia mais sangue na taça ele lambeu as bordas cortando os lábios e a língua por fim, lambeu minha mão até o local do pulso. Em seguida como os cavalheiros da idade média beijou minha mão.
-Me concede a honra desta dança? - Disse ele me puxando para junto de si. E eu não parecia mais que uma boneca sendo abraçada sem qualquer emoção no olhar. Enquanto ele rodopiava comigo nos braços.
Por fim, entediada eu respondi: - Não sei dançar. Vamos para casa.
-Comme vous voulez mon cher.
Não me bastava estar só. Não me bastava existir eternamente. Era necessário um mimo... Um gatinho de porcelana se encaixava perfeitamente no meu mundo sombrio.
E agora... Eu tinha arrastado mais um para o baile dos imortais... Mais um para o inferno.
-Mon cher, desde a noite em me tocaste cada célula do meu corpo lhe pertence. Se servir de alimento para vós for o seu desejo; terei prazer em cumpri-lo.
-Meu desejo é que você faça uma escolha que eu não quero fazer por você.
Ele pareceu surpreso. Eu puxei uma das cadeiras e disse:
-Sente-se.
Ele obedeceu prontamente. Fui me sentar, ele fez menção de levantar-se e puxar a cadeira cavalheirísticamente e ordenei: -Não se mova.
Ele permaneceu obediente.
-Coma. Lhe concederei uma oportunidade que não tive e nem costumo dar. Eu mesma preparei. Espero sinceramente não ter errado nas medidas, já que é bem difícil cozinhar apoiando-se apenas no olfato e em um livro.
Ele provou, e sorriu.
-Está divino. Errou a consistência dos bolinhos de grãos-de-bico - disse ele comendo o ultimo deles. - Mas qualquer coisa preparada por suas delicadas mãos, certamente será maravilhosa mon cher.
-Ainda não sei o que você é, mas tenho certeza de que humano não é. Nenhum humano em sã consciência comeria algo preparado por um cadáver. Ou sequer viria aqui e permaneceria tão calmo.
-Que acompanhamento devo servir quando fores me devorar mon cher? Deseja algo especial? Como devo decorar o prato? Prefere uma grande bandeja de prata ou me tomará vivo e agonizante entre seus braços? Imagino que cetim, não agrade o seu paladar... Nesse caso...
Ele retirou o colete e começou a abrir a camisa um botão de cada vez.
Peguei a taça do centro da mesa, bati a unha contra a borda e a quebrei. Com um dos cacos dilacerei meu pulso e enchi a taça com meu sangue. Ele já não era tão vermelho, possuía um tom de vinho que desafiava os tons mais escuros, enquanto a taça refletia em sua borda estilhaçada os últimos raios solares sendo engolidos pelas sombras... E eu a ofereci a Ricartto.
- Vê esta taça? Se a provar será a ultima. Nunca mais tornará a sentir sabor algum que não o de sangue e carne humana. Sua fome será macabra, e sua existência será regida por uma valsa demoníaca.
-Se eu a provar... Poderei servi-la por toda eternidade?
-Se a provar. Não terá outra escolha.
Ele se aproximou e colocou suas mãos sobre as minhas segurando a taça entre elas, e aproximando os lábios a entornou para si, e quando já não havia mais sangue na taça ele lambeu as bordas cortando os lábios e a língua por fim, lambeu minha mão até o local do pulso. Em seguida como os cavalheiros da idade média beijou minha mão.
-Me concede a honra desta dança? - Disse ele me puxando para junto de si. E eu não parecia mais que uma boneca sendo abraçada sem qualquer emoção no olhar. Enquanto ele rodopiava comigo nos braços.
Por fim, entediada eu respondi: - Não sei dançar. Vamos para casa.
-Comme vous voulez mon cher.
Não me bastava estar só. Não me bastava existir eternamente. Era necessário um mimo... Um gatinho de porcelana se encaixava perfeitamente no meu mundo sombrio.
E agora... Eu tinha arrastado mais um para o baile dos imortais... Mais um para o inferno.
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